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O céu que nos protege: língua e intelecto em Flusser

Resenha sobre

FLUSSER, Vilém. Língua e realidade.

2.ed. São Paulo: Annablume, 2004. 203p.

Coleção Comunicações

Ricardo Mendes

pesquisador em história da fotografia,

doutorando em literatura comparada pela UERJ

http://www.fotoplus.com/flusser

Após uma ausência prolongada, por mais de uma década, do mercado editorial brasileiro, os lançamentos recentes de livros do filósofo Vilém Flusser (1920-1991) tiveram uma mesma trajetória, esgotando-se rapidamente. Sai agora pela editora Annablume o sexto título em cinco anos - Língua e realidade-, na coleção Comunicações coordenada por Norval Baitello Junior.

Língua e realidade corresponde ao primeiro livro de Flusser editado há 31 anos. Pouco a pouco o leitor brasileiro vai tendo contato com parte da obra do filósofo, aquela que corresponde a sua fase inicial escrita em português, embora sua produção de maior repercussão internacional, produzida na década de 1980, aguarde tradução.

A edição atual, embora simples, vem cercada de alguns cuidados, procurando informar uma nova geração de leitores. Sob a capa púrpura, o texto original é acompanhado de um apêndice de imagens e parte da vasta bibliografia flusseriana, além dos ensaios de Baitello e Gustavo Bernardo, responsável pela revisão técnica. Tal atenção revela-se insuficiente, porém.

Nem as imagens, nem a relação de livros acrescentam dados relevantes, não permitindo ter uma idéia da trajetória intelectual de Flusser. Os textos de apresentação distinguem-se mais pelo tom entusiasmado, e em procurar responder a críticas à edição original, em especial aquelas feitas por Anatol Rosenfeld (1912-1973). Perde-se a oportunidade de comentar a operacionalidade da obra teórica de Flusser, de propor modelos para sua análise.

E a leitura de Língua e realidade revela a excepcional oportunidade dessa proposta. Para os leitores que já tiveram algum contato com outras obras de Flusser, a edição permite surpreendentemente descobrir o grau de integridade e coerência de uma produção, cujo autor foi acusado muitas vezes de dispersivo e não-sistêmico. Sem ter encaminhado sua obra teórica posterior para a lingüística ou para o campo da lógica formal como seria possível imaginar, Flusser traça aqui um modelo integrativo para o entendimento da língua, conceito tomado em toda a extensão das linguagens verbais e não verbais, que terá presença duradoura em seu pensamento.

Contudo, é preciso reforçar o valioso papel de difusão e análise dessa produção realizado pelos especialistas envolvidos na atual edição. Gustavo Bernardo é certamente o principal estudioso brasileiro da obra de Flusser, envolvido em várias das edições recentes, bem como por sua atividade no programa de pós-graduação em literatura comparada da UERJ. Baitello, por sua vez, que integra o corpo docente da PUC-SP, onde ao longo da década de 1990 se concentrou o restrito debate no Brasil sobre o autor, responde não só pela coordenação desta coleção, que deve brevemente incluir novos títulos de Flusser, como também pela discussão sobre o mesmo nas atividades de pós-graduação em comunicação naquela universidade.

A proposta apresentada em Língua e realidade é aparentemente simples. Cada língua, cada grupo lingüístico, estabelece um cosmos conceitual que media a relação com a “realidade”. Esse cosmos seria o resultado de como a língua forma, cria e propaga realidades. O modelo apresentado por Flusser constitui um esforço integrativo que representa, visto aos olhos de

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