X hits on this document

7 views

0 shares

0 downloads

0 comments

2 / 3

O céu que nos protege: língua e intelecto em Flusser

hoje, sob a posição privilegiada do leitor que conhece o desenvolvimento da produção do autor, um mapa de ação.

Flusser, migrante judeu, nascido em Praga, radicado no Brasil, em São Paulo, desde o início dos anos 40, realiza aqui, isolado, o aprendizado e maturação teórica. Apenas ao final da década de 1950, com quase quarenta anos, passa a atuar como professor de filosofia e articulista na imprensa, em especial no Suplemento Literário editado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Para seus leitores e alunos de então, a percepção de sua produção divide-se entre o dileto professor de filosofia e o ensaísta dedicado de início à filosofia da língua, fascinado pelo potencial do português, e as primeiras incursões a setores como a cibernética, a filosofia da ciência e a teoria da comunicação.

Com o retorno a Europa, no início da década de 1970, Flusser, embora mantenha por algum tempo viagens regulares ao Brasil, vai distanciando-se dos leitores da primeira fase. Seu último livro aqui editado, em 1985, Filosofia da caixa preta, apresenta um autor que será identificado na Europa, em especial nos países de língua alemã, como o teórico das novas mídias. Toda a produção que se segue, gestada em parte no seu período brasileiro, permanecerá distante de seus primeiros leitores.

Nesse contexto, Língua e realidade representa uma chave para a leitura da obra em desenvolvimento, em particular no esforço de aproximação dos campos da arte e da comunicação. Existe ainda uma outra possibilidade de compreensão dessa produção, entrevista já neste primeiro livro, a do espaço de ação do intelectual. Não no sentido estrito político, mas de como opera o intelecto. Mais do que reforçar macro conceitos que Flusser desenvolve em sua carreira, como sua preocupação com a tradução ou a condição do migrante, seria interessante observar como ele propõe - através da discussão da língua, da operação do intelecto que se dá no espaço da conversação – um modelo para o intelectual (em alguns momentos, visto em paralelo com o papel do artista na sociedade).

Desde Língua e realidade fica claro como sua produção será marcada pelo recurso à análise fenomenológica (a partir de Husserl), influência  em paralelo a do existencialismo, a qual ele parece procurar responder, sem clareza para o leitor. No campo da teoria da comunicação será a abordagem fenomenológica sua contribuição mais original no quadro brasileiro. Tais aspectos ficam evidentes em ensaios como Filosofia da caixa preta (1985) ou Gesten, editado no ano de sua morte.

Flusser parte em seu primeiro livro da aproximação entre língua e realidade, para discutir, de forma original, como essa aproximação cria e modifica a percepção do real. O estilo de análise do autor já está estabelecido. Embora Língua e realidade seja um dos raros livros de Flusser com uma estrutura convencional, é possível identificar a marca ensaística e a influência da fala. Esses dois aspectos distinguem sua escrita, heranças de uma atividade contínua como articulista e palestrante.

Em sua resenha, publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 1964, Anatol Rosenfeld criticaria severamente o método adotado por Flusser, acusando-o de imprecisões na manipulação dos exemplos extraídos do alemão, do grego e do português. Porém, o resenhista foge ao ponto principal, não discutindo a proposta e o modelo apresentado. Tais críticas ao método são muitas vezes evidentes ao leitor treinado, como no segundo capítulo em que analisa categorias conceituais da língua com abordagens por vezes surpreendentes. Ficam claros ainda alguns vícios retóricos do autor, que marcarão sua obra posterior. Em especial, revelando uma herança da produção ensaística, Flusser, ao esgotar-se um argumento ou na necessidade de encerrar o desenvolvimento de uma idéia, faz uso de protelar para o futuro a análise detalhada das diversas possibilidades entrevistas. Anos mais tarde, esse recurso adotará a forma de invocar e jogar essa esperança (e encargo) para os artistas.

Document info
Document views7
Page views7
Page last viewedSat Dec 03 02:56:14 UTC 2016
Pages3
Paragraphs30
Words1582

Comments