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O céu que nos protege: língua e intelecto em Flusser

A análise realizada a partir da aproximação língua e realidade tem um objetivo ambicioso, o de discutir a estrutura ontológica da língua e a sua relevância para análise da filosofia.  Nesse quadro, Flusser vê a ciência e a filosofia como desdobramentos da investigação da língua. Esta surge como expressão maior, integrando as diversas expressões da arte; surge como obra coletiva, como produto histórico, espelho e argila.

A crítica contemporânea apontaria muitas vezes que o autor não aborda a língua como símbolo. No entanto, embora Flusser não trabalhe sobre esta vertente, mantendo-se afastado ao longo de sua produção da análise semiótica, que marcará as décadas de 1960 e 1970, ele não está alheio a essas perspectivas, apenas propõe outras estratégias. Até mesmo a célebre tríade peircena pode ser identificada em Língua e realidade, embora faça parte da série de fios soltos que o autor não desenvolve. Assim por exemplo, ele nega, veemente, qualquer identidade entre língua e pensamento. Adiante, repudia a fusão pensamento e realidade, opondo-se a um nominalismo, pensando a língua como produto histórico, como objeto socialmente elaborado.

Em seu modelo, Flusser entende o desenvolvimento da língua em três camadas: da conversação (intelectos realizados pelo contato com outros), da poesia e da prece. Ao entendimento da poesia como espaço de criação da língua, Gustavo Bernardo, em seu ensaio, contrapõe a provocação: quem pensa a poesia?

Se é possível apresentar uma resposta, talvez o intelecto seja uma possibilidade; este é o modelo que percorre a obra. O intelecto pensa a língua, intelecto como produto e produtor dela mesmo. Língua e realidade parece ter vencido a primeira etapa de sua realização, se lembrarmos o comentário final da resenha de Rosenfeld, em que afirma: “Não concordo com quase nenhuma palavra do autor, mas espero que continue escrevendo para que possa continuar discordando dele”. Mais relevante, seria lembrar parte da correspondência trocada então com o jovem escritor Paulo Leminsky (1944-1989), em que se revela o encontro despertado pela leitura do livro através de poucas cartas, nas quais ambos apresentam suas referências. Em particular, pelo breve comentário de Leminsky sobre a necessidade de rever os conceitos de misticismo e religiosidade para uma correta apreensão da análise presente em Língua e realidade.

Flusser relegou muitas tarefas para o futuro. Algumas pesquisas começam a retomar suas idéias em novo contexto. O lançamento desta segunda edição é um importante passo nessa direção, na busca de uma conversação.

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