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GUIA DE ESTUDOS PARA O CONCURSO DE ADMISSÃO À CARREIRA DE DIPLOMATA

Isso foi possível porque muitos arquivos foram abertos, no Paraguai e em parte no Brasil, e porque os maniqueísmos de direita e de esquerda perderam muito de sua força. A constatação tem também a ver com a emergência do regime democrático que permitiu a revisão, sem temores, da interpretação patrioteira do conflito — uma “verdade inconteste”, na época do regime militar e mesmo antes dele.

Tudo isso indica que as interpretações históricas não são ondas que vão e vêm, como discursos que se equivalem. Elas favorecem a ampliação do conhecimento e, mais do que isso, possibilitam ao cidadão letrado opções de análise do passado que não o obriga à ingestão de pratos feitos, quase sempre indigestos.

Folha de S. Paulo. 27/2/2005 (com adaptações).

Texto III: A narrativa na escrita da história e da ficção

Luiz Costa Lima

A tendência à confusão entre as formas discursivas da história e da ficção literária não é apenas um efeito do que têm em comum — a organização narrativa — ou uma resultante da reação ao estatuto inadequado que se conferiu a esta e àquela. Se assim o fosse, essa tendência só se manifestaria em data recente. Ora, J. Lotman* nos faz notar que essa tendência é muitíssimo mais remota. Mostra-nos ele que, sob a forma comum de narrativa, desde tempos imemoriais, surgiam dois tipos de relato. De um lado, aqueles que tinham por finalidade apresentar um mundo estável, absolutamente regulado por leis. Fixados sob a forma de mitos, “não lidavam com fenômenos que sucediam apenas uma vez e sem referência às leis naturais, mas com eventos intemporais, sem cessar reproduzidos, e, neste sentido, sem movimento” (Lotman, J.: 1979, 162-3). De outro lado, surgiam as narrativas voltadas para o excesso, o anômalo e o singular, que, pelo próprio tipo de cena privilegiado, não permitiam a representação do ciclo cósmico, nas quais encontra o cerne dos relatos dotados de enredo. Desde tempos sem conta, a humanidade recorreu a estas duas formas antagônicas de narrar. Se a primeira privilegiava a visão de ciclos estáveis, dotados de leis constantes, a segunda ressaltava o acidental irrepetível e singular. “O texto de enredo (plot-text) moderno é o fruto da interação e da influência recíproca destas duas espécies de texto, tipologicamente remotas” (Lotman, J.: idem, 163).

A passagem de Lotman realça por outro caminho um velho conhecimento: o mito é o corpo unânime de cuja fragmentação surgiram, na Grécia, a história e a tragédia. O interesse deste conhecimento assim recuperado está em nos permitir, ao mesmo tempo, o melhor entendimento tanto da proximidade quanto da diferença entre história e ficção. O fato de que ambas se realizem narrativamente não impede que cada uma provoque um relacionamento diverso com o mundo. O intento do historiador é designar o mundo que estuda. Designá-lo não no sentido de apontar o que ali já estivesse, pronto e apenas à espera da palavra que o propagasse. Designá-lo, no caso, significa: organizar os restos do passado, tal como presentes ou inferidos de documentos, em um todo cujo sentido centralmente não é da ordem do imaginário. A interpretação do historiador, sua forçosa interpretação, será arbitrária se, por conta de seus valores, fundá-lo à imagem de outro tempo e fundi-lo às expectativas e categorias deste. O intento do ficcionista é criar uma interpretação desestabilizadora do mundo. Como este já é demarcado pelas múltiplas representações dos frames cotidianos, o correto será dizer que ele cria uma representação desestabilizante das representações. Representação segunda, a do ficcionista, que não tem o propósito de re-duplicar a primeira, o que a tornaria ociosa, senão que de mostrá-la à distância, assim possibilitando ao receptor uma orientação diversa da que se lhe impõe quando é mero “ator”.

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