X hits on this document

292 views

0 shares

0 downloads

0 comments

30 / 94

GUIA DE ESTUDOS PARA O CONCURSO DE ADMISSÃO À CARREIRA DE DIPLOMATA

Porque próximas, as práticas do historiador e do ficcionista podem ser comparadas e não só contrapostas. Porque enraizadas no uso da linguagem, de cuja capacidade organizativa depende a eficácia de ambas, é de se esperar que o questionamento da cientificidade da história conduza ao estudo mais acurado dos procedimentos verbais escolhidos pelo historiador. A partir daí, contudo, supor que se conduza como um ficcionista será tão desastroso quanto tem sido para este tomar-se o seu produto como um documento histórico. Próximos, mas distintos, os discursos do historiador e do ficcionista diferenciam-se tanto pela maneira como suas narrativas se relacionam com o mundo quanto pelo modo como neles atua o narrador.

A aguarrás do tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 101-2.

* Iuri (Juri ou Jurij) M. Lotman (1922-1993) é autor de diversas obras sobre Teoria da Literatura e Semiótica. Os trechos citados no texto III foram extraídos do ensaio The origin of plot in the light of typology, publicado na revista Poetics today 1 (1/2): 161-184 (1979). [Nota dos examinadores]

Parte I – Comentário

Identifique e comente de forma resumida as visões do trabalho do historiador contidas exclusivamente nos textos I, II e III.

Extensão: de 250 a 300 palavras (valor: trinta pontos)

(comentário elaborado com base em respostas de alguns candidatos)

As visões do trabalho do historiador que se depreendem dos textos “A narrativa na escrita da história e da ficção”, de Luiz Costa Lima, “Os vivos governam os mortos”, de Boris Fausto, e “O punhal de Martinha”, de Machado de Assis, apesar de peculiares, apresentam o traço comum de divergir da perspectiva do senso comum sobre o tema.

[...] Costa Lima caracteriza o trabalho do historiador como o esforço de organização dos vestígios do passado, a fim de constituir panorama calcado na realidade. Não se trata simplesmente de desvendar uma realidade preexistente, como suporia o senso comum, mas de elaborar narrativa que apreenda e organize o passado, sem permitir que a interpretação se constitua em fator de distorção ou anacronismo. Ao fundamentar a especificidade do discurso da história (por oposição ao da ficção) em sua pretensão de verdade, Costa Lima se distancia do que apregoam alguns teóricos contemporâneos.

[...] Para Boris Fausto, a interpretação é, ao lado do progressivo acesso às fontes, recurso fundamental do historiador, em que pese aos condicionamentos impostos pelo momento em que vive. Rejeitando como ilusória a pretensão positivista do conhecimento cabal e definitivo do passado, Fausto releva a importância da diversidade interpretativa para o amadurecimento de visões não-dogmáticas da história. Parece subjazer à sua visão do historiador a idéia democrática de que o debate e as controvérsias favorecem a aproximação da verdade.

[...] Dos três autores, Machado de Assis é quem expõe visão mais cética a respeito do historiador. Propenso, segundo o autor, a manipular fatos e cultivar legendas, o historiador relegaria ao esquecimento fatos que envolvem pessoas comuns, independentemente de seu

Document info
Document views292
Page views295
Page last viewedSat Dec 10 21:03:28 UTC 2016
Pages94
Paragraphs1332
Words41002

Comments