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GUIA DE ESTUDOS PARA O CONCURSO DE ADMISSÃO À CARREIRA DE DIPLOMATA

valor intrínseco. A incredulidade de Machado de Assis comporta um paradoxo, na medida em que apenas por intermédio do trabalho do historiador se podem desmistificar falseamentos operados por outros historiadores.

Parte II – Redação

Disserte sobre o tema suscitado no seguinte trecho de Benedito Nunes.

(...) “o recurso aos documentos assinala uma linha divisória entre história e ficção; diferindo do romance, as construções do historiador pretendem ser reconstruções do passado.” (...) Mas essa linha divisória, que acentua a dissimetria entre a narrativa histórica e a narrativa ficcional, anula-se pela natureza desse passado reconstruído, quando se dá à expressão o seu peso ontológico de reconstrução de uma realidade que não mais existe, que já deixou de ser. Desse ponto de vista, a “realidade histórica” é tão sui generis quanto a “irrealidade” da Ficção. Nesta, os acontecimentos inventados, formando um mundo fictício, escapam a qualquer espécie de confirmação empírica. Naquela, os dados empíricos (documentos), signos de um mundo que foi real, remetem a acontecimentos passados, conhecidos por inferência, e que só se confirmam, fora de toda comprovação empírica, pela reconstrução desse mesmo mundo.

Extensão: de 500 a 600 palavras (valor: setenta pontos)

Ronaldo Lima Vieira (com adaptações)

A sociedade pós-moderna foi inaugurada, segundo François Dosse, no ano de 1968 e é marcada pela idéia de fragmentação do saber. O mundo contemporâneo tomou direção oposta ao arcabouço disciplinar definido pela modernidade.

No âmbito das ciências humanas, suscita-se controvérsia acerca da validade de uma história de fatos e a respeito da tênue diferença que a separa da ficção. Se, por um lado, se questiona a defesa da prevalência da história, por outro, confere-se à literatura certo poder de verdade, para além da verossimilhança, característica que a tradição lhe atribui. Estas disciplinas – a história e a literatura – têm dois pontos de convergência: a memória e a linguagem.

Hanna Arendt define a memória, coletiva ou individual, como o presente do ser pensante. O fazer social é motivado e limitado pelos valores oriundos do passado retido ou recriado na memória do indivíduo. De forma análoga, a psicanálise clínica, ao estudar as causas da psicopatia, não faz distinção entre o que o paciente resgata como fato de sua história pessoal e o respectivo vínculo com a realidade empírica. A razão, para isso, reside no fato de que todos nós vivemos precipitados no tempo, que não tem começo nem fim. Mais importante do que revelar a realidade objetiva, portanto, é verificar os efeitos de sentido que os fatos causam, porque daí nascem e se desenvolvem as identidades e diferenças culturais.

Quanto à linguagem, alguns filósofos contemporâneos, como Foucault, Deleuze e Bourdieu – influenciados pela fenomenologia ontológica de Heidegger – atribuem-lhe relevância superior, pois, em seu entender, a realidade humana é construída pela linguagem. Foucault, adotando posição mais radical, sustenta a idéia de que o sujeito é, em última instância, “efeito discursivo”, logo, não somos nós quem pronuncia a linguagem, mas é a ordem do discurso que constrói o ser social. Nesse sentido, o historiador e o literato não se servem da linguagem; ao contrário, ela é que se utiliza deles, por serem construídos de intertextos.

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