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Porto Alegre, janeiro de 2006 - page 19 / 82

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Hélio Riche Bandeira, Mestre em Educação, PUCRS * www.padilla.adv.br/desportivo/artesmarciais * p.19

8. O tudo: neste último estágio, o praticante de artes marciais encontra a essência resultante da energia integradora que entrelaça todos os estágios harmonicamente. Trata-se do encontro, conforme Barbier (apud BERTRAND, 2002, p. 134), de um ponto de equilíbrio no desequilíbrio de toda a vida em ação:

Equilíbrio entre o corpo e o mental; equilíbrio entre a razão e o imaginário; equilíbrio entre o pensamento e o sensível; equilíbrio entre o espiritual e o material; equilíbrio entre o futuro e o passado no presente recomposto; equilíbrio entre a temporalidade e a instantaneidade; equilíbrio entre o grupo e a pessoa; equilíbrio entre a vida externa e a vida interior; equilíbrio entre seu princípio masculino (yang) e seu princípio feminino (yin).

Portanto, ao se perceber a espiral como um todo, nos guiamos na direção do verdadeiro karate que junta os elementos corporais, os aspectos técnicos, os domínios mentais, unindo-os à parte espiritual. Logo corpo, técnica e espírito são indissolúveis para quem almeja o verdadeiro caminho, conforme relata Tagnin (1973, p. 100), ao afirmar que “é certo que uma das partes em detrimento de outra não pode levar ao todo; se não fizermos a união sincera destas partes, estaremos roubando de

nós mesmos o prazer de conhecermos uma verdadeira arte marcial”.

A palavra karate para ficar completa tem que ter acrescido a ela o termo do (caminho), ficando dessa forma karate-do, na qual do representa o aporte que o zen-budismo oferece aos praticantes de artes marciais para percorrem esta estrada. Segundo Oliveira Filho (1993, p. 5), “do é a filosofia que conduz o homem a encontrar sua própria essência, percorrendo tal via conhecida como budo (caminho da iluminação)”.

  • O

    verdadeiro karate deve sempre estar, segundo os preceitos do zen-budismo, na busca do vazio.

Este vazio que não pode ser compreendido como uma ausência inconsciente, sem direção, mas, certamente, como um vazio bem conduzido, que tenha por objetivo o equilíbrio e a harmonia com o todo, com o universo.

Conforme Tagnin (1973, p. 103):

  • O

    vazio não aparece como algo estéril, mas positivo em si; pois o espírito livre de tudo que o prejudica,

está pronto para perceber a mínima percepção. Deste modo pode perceber uma revelação rapidamente e não conseguida em tempo normal.

Tudo então se torna claro. Assim o bem e o mal são distinções sem importância, como o sagrado e profano além de desviarem o espírito. Somente importa o vazio absoluto, e nele, tudo é Um.

Também através deste vazio, podemos encontrar a paz espiritual, conforme relata Silva (1984, p. 6) ao dizer que “sentirmos-nos ‘vazio’, ou melhor, livres, tanto da cobiça, ambição e ódio. É um engano pensarmos que as artes ensinem a luta, a briga ou maus caminhos. Muito pelo contrário, nela

aprendemos o bom caminho, a humildade e o amor à própria vida”.

  • O

    karate, pois, permite descobrir a possibilidade de uma existência mais equilibrada na sua

plenitude. Nele o homem pode, conforme Tagnin (1973, p. 111), “alcançar o domínio, chegar a ser

u m s e r m a i s c o m p l e t o , n ã o s e n d o s ó u m s e r p e n s a n t e , m a s s i m u n i ã o c o r p o e e s p í r i t o .

Portanto, toda esta espiritualidade que acompanha o karate, além de outros fatores, leva a acreditar que seu treinamento pode determinar uma diminuição da agressividade ou quando menos uma canalização controlada e positiva, eliminando os estados de ansiedade e angústia típicos do homem moderno numa resposta aos desafios da sociedade atual.

No karate, a calma e a serenidade devem ser conservadas em qualquer momento, conforme relata Tagnin (1973, p. 90-91):

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