X hits on this document

29 views

0 shares

0 downloads

0 comments

2 / 11

324

Marlene Guirado

gurando aí seu objeto e exercendo-se ela própria como instituição.

Parece infindável essa tarefa: demonstrar a viabili- dade de pensar a psicologia como instituição e daí derivar a ideia de que onde e como quer que se a exer- ça, estaremos de algum modo reafirmando esse seu caráter; estaremos produzindo e/ou reproduzindo uma prática, um conjunto de relações, que reconhecemos legítima e naturalmente ser... psicologia.

PSICOLOGIA: INTENÇÃO E EXTENSÃO

Há aproximadamente três décadas, começou a se tornar visível, entre nós, a preocupação de estender a psicologia para além das áreas em que habitualmente se exercia: pesquisas de laboratório, psicodiagnóstico, psicoterapias, treinamento e seleção profissional, pre- dominantemente. Por currículo e por lei, ora mais e ora menos contraditoriamente1, o ensino e a atuação profissional vão produzindo o desenho de uma psico- logia que não parece querer ficar à margem das refle- xões filosóficas e sociológicas, feitas nas salas de aula, ou à margem de ações políticas das agremiações estudantis e dos movimentos sociais e comunitários em geral.

Nesse desenho da profissão, ganhou espaço o tra- balho junto a instituições (aqui entendidas como orga- nizações), sobretudo as de saúde, educação e promo- ção social. Em 1982, o governo do estado de São Paulo abriu vagas para psicólogos, nos serviços públi- cos, contribuindo para a extensão dos limites institu- cionais da profissão. Vários egressos das faculdades dirigiram-se para esses atendimentos que tomaram um caráter multiprofissional, dada a abertura feita, tam- bém em outras áreas. Os mestres universitários e pro- fissionais mais experientes (entre eles, estavam psi- cólogos e psicanalistas que migraram da Argentina para cá) dedicavam-se à supervisão desses trabalhos. Não tardou a aparecer uma disciplina na Universidade de São Paulo, ainda optativa: Psicologia Institucional2. Com o passar do tempo, os currículos de outras facul- dades foram incorporando o mesmo título.

É assim que, cada vez mais, psicologia e institui- ção vai se tornando um binômio conhecido e reconhe- cido. Tal efeito, no entanto, não resolve as questões oriundas de um trabalho que, apesar de tudo, ainda não tinha um respaldo suficiente na formação e no currículo. E, sendo as práticas concretas o carro-chefe, multiplicaram-se, quase às raias da dispersão, os mo- dos de compreensão e intervenção. Estamos falando agora do estado das coisas no final da década de 1980

e início da de 1990. Isto de tal forma que parecia ha- ver tantos modelos de trabalho quantos fossem os mestres e supervisores em campo. Uns se diziam so- ciopsicanalistas, outros psicólogos institucionais, ou- tros ainda, analistas institucionais (e aqui, agrupava-se a maior variedade de posições, desde os adeptos de Lapassade até os de seu parceiro intelectual, Lourau; ou, desde os que assinavam uma autoria pessoal até os que se filiavam à orientação de Delleuze e Guattari; e assim por diante).

Apesar da liberalidade na nomeação daquilo que faziam, profissionais e autores sobre o tema produ- ziam trabalhos até certo ponto diferentes sob a insíg- nia institucional. Em parte, deriva dessa diversidade, no limite da indiferenciação, uma vantagem para o exercício da psicologia: multiplicaram-se (e se multi- plicam) iniciativas e tentativas de alargar os horizon- tes do pensamento e do fazer concreto, extrapolando os já distantes limites legais e provocando os psicólo- gos a abandonar determinadas certezas cristalizadas em suas modalidades de atuação, para abraçar desa- fios ainda muito tensos e informes. O que está longe de ser algo negativo.

Gradativamente, permanecem dois títulos a signifi- car os trabalhos “junto às instituições”, como se cos- tuma dizer: Psicologia Institucional e Análise Institu- cional. Seriam elas a mesma coisa? A rigor, não. Ve- jamos.

A PSICOLOGIA INSTITUCIONAL DE BLEGER: UMA INTERVENÇÃO PSICANALÍTICA

Psicologia Institucional é um termo cunhado por J. Bleger, psiquiatra argentino de orientação psicanalíti- ca inglesa, que a um certo momento, buscou aliar psicanálise e marxismo para pensar a atuação do pro- fissional em psicologia, para além das práticas tera- pêuticas e consultorias. Em nome dele e por meio de seus escritos, nos idos de 1970, a Psicologia Institucio- nal cruzou fronteiras e, assim, apesar dos efeitos da repressão política que forçava os mais inquietos a “falarem de lado e olharem para o chão3”, novos ares pareciam poder soprar nestes brasis.

Trabalhar com psicologia institucional, portanto, é trabalhar com uma determinada abordagem psicanalí- tica específica. E, como Bleger o define, com essa abordagem, toma-se a instituição como um todo, como alvo da intervenção. Em seu livro Psicohigiene e Psicologia Institucional (Bleger, 1973/1984), fica claro que o psicólogo opera com os grupos, desde os de contato direto com a clientela até a direção, por

Interação em Psicologia, Curitiba, jul./dez. 2009, (13)2, p. 323-333

Document info
Document views29
Page views29
Page last viewedWed Dec 07 22:44:12 UTC 2016
Pages11
Paragraphs211
Words8298

Comments