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meio de um enquadre que preserva os princípios bási- cos do trabalho clínico psicanalítico, bem como suas justificativas. Ainda: a compreensão que tem das rela- ções interpessoais guarda uma formulação muito inte- ressante: a da simbiose e ambiguidade nos vínculos e ele mesmo aproxima essa compreensão às ideias de M. Klein a respeito de posições nas relações de obje- to; mais do que ao conceito de narcisismo em Freud (Bleger, 1977/1987).

Tudo isto implica que se alguém se diz trabalhando com psicologia institucional, estará, ao mesmo tempo, tomando, tanto a instituição e suas relações quanto a intervenção do psicólogo, a partir de uma perspectiva psicanalítica; ou da perspectiva de uma psicanálise. Interpretações ou assinalamentos, informados por esta compreensão das relações institucionais, definem sua inserção nos grupos, seu fazer.

Assim, apenas sumariada, a proposta de Bleger perde muito de sua riqueza e força... operativa. Para que se lhe faça justiça e para que se possam apreciar as alterações que ele mesmo faz na psicanálise que em princípio credita, recomendosobretudo a leitura dos textos O Grupo como Instituição e o Grupo nas Ins- tituições (Bleger, 1979/1981) e Psicologia Institucio- nal (Bleger, 1973/1984).

A ANÁLISE INSTITUCIONAL DE LAPASSADE: UMA INTERVENÇÃO POLÍTICA

Análise Institucional, por sua vez, é o nome dado a um movimento que supõe um modo específico de compreender as relações sociais, um conceito de ins- tituição e um modo de inserção do profissional psicó- logo que é de natureza imediatamente política. Desa- lojado do lugar de intérprete dos movimentos grupais ou interpessoais, ele não se delega a tarefa diferencia- da da interpretação ou de assinalamentos; ele é, acima de tudo, um instigador da autogestão dos grupos nas organizações, um favorecedor da revelação dos níveis institucionais, desconhecidos e determinantes do que se passa nesses grupos. É um provocador de rachadu- ras e rupturas na burocracia das relações instituídas. Está do lado do instituinte, ainda que se questione sempre esse lugar e a própria análise como facilitado- res da “liberação da palavra social dos grupos” (Lapassade, 1974/1977).

  • O

    idealizador da Análise Institucional é Georges

Lapassade, psicólogo de formação, que passou a tra- balhar com psicossociologia e prosseguiu com um intrigante caminho intelectual e político, o qual de- sembocou nesse movimento autodenominado Análise Institucional.

Interação em Psicologia, Curitiba, jul./dez. 2009, (13)2, p. 323-333

Psicologia Institucional: O Exercício da Psicologia Como Instituição

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Por que “movimento”? Porque, num tom acalorado e ruidosamente polêmico, em princípio pelo estilo de sua escritura, praticamente, convoca adeptos a uma causa4. Propõe uma forma de agir e pensar que deve- ria mobilizar todos os níveis institucionais ao mesmo tempo; e isto seria justificável por finalidades políticas (supostamente) óbvias (e) que todo leitor deveria ter! Funciona quase como uma convocação à militância. E

  • o

    leitor se sente nessa condição de chamado aos brios:

“Mexa-se! O que você está fazendo aí sentado? Venha engrossar as fileiras dos que rompem com a burocra- cia, liberam a palavra social e fazem a revolução per- manente!”.

Tal chamado, porém, como uma segunda voz nos escritos de seu livro mais conhecido entre nós (Lapas- sade, 1974/1977), traz já a ambiguidade, assumida por ele, de apresentar e criticar radicalmente a Análise Institucional que ele mesmo propõe. No “Prólogo à Segunda Edição” dessa obra, acaba por dizer, enfati- camente, sobre a ineficácia da Análise Institucional, na medida em que conta com a ação de técnicos como coordenadores e preceptores de mudança; a menos que se queira considerar, por um artifício, que a análise se dá no nível da palavra e, portanto, não tem relação automática com uma mudança na ação concreta. Por isso, não menos enfaticamente, afirma que o que se deve fazer é a Ação Direta (análise em ato), por aqueles mesmos que constituem os grupos de uma determinada instituição e/ou organização, com as lide- ranças nascidas de seu interior. Segundo ele, essa é a verdadeira revolução permanente que “decapita o rei”, as instituições sociais dominantes. Tudo, por inspira- ção dos momentos históricos da revolução de 1968, na França, e ainda visando à liberação da palavra social. Ora, poucos anos mais tarde, registra-se em um “Pró- logo à Terceira Edição”, que a liberação a ser feita é a do corpo e que o que, então, se sustenta como ação de um profissional da psicossociologia e da psicologia é Crise Análise.

São de Lapassade distinções conceituais impor- tantes que parecem frequentar o discurso de institucio- nalistas e de psicólogos afeitos a essa perspectiva de trabalho. Nem sempre citada a fonte, alguns desses termos parecem ter ganhado um sentido muito próxi- mo ao de sua origem nesses outros discursos.

A primeira delas é a distinção instituinte/instituído.

  • O

    instituinte é uma dimensão ou momento do proces-

so de institucionalização em que os sentidos, as ações ainda estão em movimento e constituição; é o caráter mais produtivo da instituição. O instituído é a cristali- zação disso tudo; é o que, na verdade, se confunde com a própria instituição.

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