X hits on this document

32 views

0 shares

0 downloads

0 comments

4 / 11

326

Marlene Guirado

A segunda é a distinção entre dois outros termos: organização e instituição. Organização é um nível da realidade social em que as relações são regidas por estatutos e acontecem no interior de estabelecimentos, espaços físicos determinados. A instituição é o nível da lei ou da Constituição que rege todo o tecido de uma formação social; está acima dos estatutos das organizações. Ainda, segundo Lapassade, a instituição pode ser considerada o brique-braque das determina- ções daquilo que atravessa os grupos de relação face a face numa organização social. A sala de aula é exem- plar nesse sentido: a relação entre as pessoas é regida por normas que, em última instância, estão apoiadas no que prevê a lei maior para o ensino; nesse contex- to, o professor poderá ser considerado um represen- tante do Estado frente a seus alunos.

Menos conhecida é a concepção de burocracia que anima essa proposta. Em poucas palavras, a novidade que esse autor nos apresenta é a de que burocracia é, em princípio, uma questão de poder. Uma questão de divisão no poder, entre grupos de decisão e grupos de execução do fazer institucional, sendo que os primei- ros decidem não apenas o que, mas também, o como fazer. A normatização e a comunicação vêm de cima para baixo, e não há previsão de canais legais ou legí- timos para que essa relação se inverta. A regra de ouro é a obediência e a organização acaba sendo um fim em si mesma. Indivíduos e grupos acabam se munindo de um radar que possa sondar as necessidades e inte- resses que não os próprios. É a heteronomia de grupos e sujeitos, que corre em sentido oposto ao da autono- mia.

Sobretudo com essa concepção de burocracia, Lapassade faz um mapeamento das relações institucio- nais, trazendo para elas a organização da separação, pelo poder de decisão, e a produção de sujeitos sem autonomia, alienados e alienadores da palavra social. As relações de poder e a ideologia têm, assim, seu contexto constituinte5.

Podemos derivar daí um alvo para ação do psicó- logo. E, com isso, voltamos ao início e título desse item: trata-se, nessa perspectiva, de um trabalho ime- diatamente político, e apenas mediatamente psicológico.

Tudo o que aqui se apressou em dizer é apenas um convite ao leitor para que consulte esse intrigante livro (Lapassade, 1974/1977).

Como dissemos anteriormente, a nomeação Análise Institucional estendeu-se a uma variedade de compre- ensões e modos de atuação, sobretudo os psicanalíti- cos. De tal forma que, hoje, a referência comum tem

sido o fato de se tratar de trabalhos institucionais e/ou junto a instituições. Em geral, quando conduzidos na forma de supervisão do trabalho de profissionais de ação direta.

  • O

    EXERCÍCIO DA PSICOLOGIA

COMO INSTITUIÇÃO

Até aqui, buscamos caracterizar o contexto do exercício profissional da psicologia, em que foi se constituindo e firmando uma modalidade de interven- ção que saía do âmbito dos atendimentos clínicos, das pesquisas laboratoriais, das escolas e das empresas, como ocasião de psicodiagnósticos, seleções e treina- mentos; que saía, ao mesmo tempo, do perímetro legal que havia sido conquistado, estendendo-se e produ- zindo outros sentidos (extensões e intenções); consti- tuindo uma modalidade de intervenção que, com isso, passa a se dizer institucional ao ser exercida junto a instituições.

  • O

    leitor poderia considerar que a frase acima é,

praticamente, um pleonasmo: institucional porque junto a instituições. Na verdade, ela porta uma dife- renciação bastante significativa e que tentarei a partir de agora esclarecer. Voltando ao início deste texto, é essa a tarefa que me parece infindável: a de demons- trar essa diferença.

Bem, toda diferença exige que se anuncie o outro polo, ou simplesmente, o contraponto. Tendo eu inicia- do meus estudos teóricos sobre o assunto, ao vivo, com institucionalistas, em geral argentinos, fui depois, aos poucos, me dirigindo a leituras vindas d’além mares. Primeiramente, Lapassade teve efeitos em minha prática profissional, que eu passava, então, a designar como se dando “no nível organizativo/polí- tico, do interior do exercício da própria psicologia”. Depois, mais diretamente, entro em contato com os escritos de Michel Foucault, por influência de um autor nacional, José Augusto Guilhon Albuquerque. Enquanto isso, os estudos da psicanálise de Freud e, com o tempo, da Análise do Discurso Francesa no que dela dava a conhecer Dominique Maingueneau, foram ganhando espaço. Como quem não se poupa de colo- car no papel as ideias que lhe começam a fazer senti- do, sobretudo porque elas faziam sentido no exercício concreto da psicologia, (no ensino e nas atuações pro- fissionais que marcadamente guardavam uma pers- pectiva sempre institucional) escrevi dois livros. E, a partir daí, não parei mais de enfrentar as implicações de assim pensar; isto, num diálogo com as produções desses autores bem como numa interlocução com os

Interação em Psicologia, Curitiba, jul./dez. 2009, (13)2, p. 323-333

Document info
Document views32
Page views32
Page last viewedSat Dec 10 07:33:08 UTC 2016
Pages11
Paragraphs211
Words8298

Comments