X hits on this document

41 views

0 shares

0 downloads

0 comments

5 / 11

alunos dos cursos que ministro, com os orientandos e suas pesquisas, com os trabalhos de colegas afeitos também ao estudo das instituições e da psicologia como profissão. A clínica psicanalítica como análise de discurso e a questão do sujeito na pesquisa em psicologia têm sido, ultimamente, ocasião de prosse- guir organizando as ideias e, nisso, demonstrar que é possível configurar uma estratégia de pensamento que tome a psicologia como instituição do conhecimento e da prática profissional, onde e como quer que ela se dê, na ação direta de seus atores: o psicólogo e seu cliente, o professor e seus alunos, o escritor e seus leitores.

E se o leitor estiver, agora, um pouco reticente quanto às possibilidades dessa estratégia de pensar, não lhe tiro a razão, mas faço disso um desafio para a demonstração de sua viabilidade. Mais: inicio pelo recorte conceitual que precisou ser feito para que essa psicologia institucional, que ora apresentamos, mostre a que veio. A ponto de o título Psicologia Institucio- nal, tomado para nomear práticas psicológicas junto às instituições/organizações conforme se viu nos mode- los anteriores, mostrar-se limitado, pois enfatiza, ou melhor, pode recair numa questão de áreas de atuação. Nossa proposta visa a dizer, não de uma área de atua- ção, mas de um certo dispositivo metodológico, de um certo modo de produzir psicologia.

  • O

    CAMPO CONCEITUAL DESSA NOVA PROPOSTA

A base diferencial de nossa proposta é o conceito de instituição com que trabalhamos: conjunto de relações sociais que se repetem e, nessa repetição, legitima-se (Guilhon Albuquerque, 1987/2004). Essa legitimação se dá, em ato, pelos efeitos de reconhecimento de que essas relações são óbvias e que naturalmente sempre foram assim. Dá-se, ao mesmo tempo e complemen- tarmente, pelos efeitos de desconhecimento de sua relatividade. A escola, por exemplo, é uma criação da modernidade, mas é muito pouco provável que seus agentes e sua clientela consigam imaginar a relativida- de dessa forma de ensinar. Professores e alunos, na repetição silenciosa dos rituais cotidianos e na sutil disciplinarização de corpos e pensamentos, reconhecem que se pode até pensar e melhorar uma ou outra coisa, mas, para ensinar tem que ter escola! E que sempre foi assim! No detalhe: é comum ouvir de professores quei- xas com relação aos desmandos de coordenadores e supervisores de seus trabalhos e, enquanto isso, com exigência não menos veemente, não abrem mão de receber uma programação pronta para suas aulas. Da

Interação em Psicologia, Curitiba, jul./dez. 2009, (13)2, p. 323-333

Psicologia Institucional: O Exercício da Psicologia Como Instituição

327

parte dos alunos: quanta relutância em aprender a pensar, quando isto significa desacomodar-se da posi- ção de ouvinte e do “privilégio conquistado” de diluir-

  • -

    se no conjunto da sala ou de um grupo de trabalho,

para responder por uma leitura ou pelo trabalho pes- soal de um texto!

  • O

    mais importante nessa compreensão de institui-

ção é que ela nos coloca, na qualidade de agentes ou de clientela, como atores em cena. É a nossa ação que faz a instituição. Que a reproduz e legitima. Inclusive, no que diz respeito aos efeitos de reconhecimento e desconhecimento. Assim, não há porque se referir à instituição como um corpo estranho, acima de nossas cabeças, com vida própria e independente de nós. Nós a fazemos. E, mesmo que à revelia de nossa consciên- cia, reconhecemos como natural e legítimo esse fazer.

Além disso, toda instituição constitui um objeto (imaterial, impalpável): é aquilo (ou a relação básica) em nome de que ela se faz, e cujo monopólio é reivin- dicado numa delimitação de âmbito de ação com ou- tras instituições (Guilhon Albuquerque, 2004). A cura, por exemplo, pode ser considerada o objeto das práti- cas médicas; o das práticas escolares pode ser consi- derado não apenas o ensino formal, como também a direção e a disciplina dos atos dos educandos, inclusi- ve para além dos muros escolares, com a aquiescência (e a convite) da família (vide palestras de médicos, psicólogos e educadores sobre o uso de drogas, que as escolas têm oferecido aos pais, muitas vezes a pedido destes).

Por fim, cabe ainda destacar que toda instituição, basicamente, se constitui na e pela relação de cliente- la; isto é, na relação de agentes institucionais com os clientes dessas instituições. Estes últimos demandam um determinado serviço e os primeiros se destinam a prestá-lo. É nessa relação que se define a tensão entre posse e alienação do objeto institucional. Uma relação de poder, portanto, um jogo de forças poder/resistên- cia, que não se dá senão no e pelo discurso.

Chegamos desse modo ao outro termo definidor do campo conceitual de nossa proposta: discurso. Com Michel Foucault, tomamos o discurso como ato, dis- positivo, instituição, que define, para um determinado momento histórico e para uma região geográfica, as regras da enunciação. Nele e por ele, como dissemos acima, o jogo de forças poder/resistência se exerce e a produção de um saber ou verdade se faz concreta (Foucault, 1985, 1997).

  • O

    leitor pode estranhar que, ao falar “discurso”,

não usamos a palavra “palavra”. O que queremos dizer

Document info
Document views41
Page views41
Page last viewedSat Jan 21 11:40:10 UTC 2017
Pages11
Paragraphs211
Words8298

Comments