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Marlene Guirado

com isso? Afinal, discurso não tem a ver com fala? De todo modo sim. De certo modo, não. Se subli- nharmos nessa concepção que o discurso é dispositi- vo que define as regras da enunciação, entramos no campo da palavra. Mas, da palavra, entendida como

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    modo de enunciar e, até certo ponto, como cena

enunciativa, que posiciona personagens, que distribui lugares e expectativas em torno desses lugares, como diria o linguista e analista do discurso, Dominique Maingueneau (1987/1989).

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    que importa, porém, é considerar, com Foucault,

que os discursos são dispositivos-ato, (por)que su- põem para seu exercício uma posição, um lugar, que é um lugar na enunciação; isto é, um lugar prenhe de palavras para ouvir e para falar; com os efeitos que isto pode ter sobre a ação de um e outro em relação, num determinado contexto.

Um exemplo pode vir em nosso socorro, para que as palavras não abusem da compreensão com sua ari- dez. Falemos do dispositivo da clínica psicanalítica como discurso. Um observador atento pode perceber que os consultórios dos analistas têm um design que guarda semelhanças básicas. Moda? Muito provavel- mente não. Do ambiente físico até o modo de se ves- tir, andar e se dirigir ao paciente, sobretudo nas pri- meiras entrevistas, há um regramento implícito da conduta do profissional que o faz sentir-se parte de uma comunidade discursiva6: aquela dos que são ana- listas ou psicoterapeutas que trabalham com essa orien- tação. Pertencer a essa comunidade faz supor, por sua vez, que falam a mesma língua. Isso significa que, ora mais e ora menos diretamente, aprenderam das mes- mas fontes teóricas, leram e creditaram os mesmos autores; ou seja, comungam as mesmas teorias e se autorizam a dizer em nome dos mesmos mestres. Também, isso implica um modo de pensar o que de- vem fazer como analistas, o que é análise, “quem” é o paciente, porque sente o que sente, até onde se pode ir num determinado processo.

Tudo isso se dá por um sutil enlaçamento dos efeitos das práticas de formação aos da própria repeti- ção cotidiana dos atendimentos. Sutil, porque o reco- nhecimento que fazemos da teoria que aprendemos, como verdade sobre uma pessoa concreta que nos procura, é legitimação, naturalização muda do conhe- cimento constituído. E, tudo isso se passa à revelia de nossas consciências.

Assim, quando recebemos um paciente em nosso consultório, nossa escuta se plasma nessa história da formação e da pertença aos grupos que falam a mesma língua. Costumo dizer que o ouvimos (ao paciente)

com as palavras que temos para ouvi-lo (Guirado, 1986/2006). No momento em que diz por que nos procurou, isto já será ouvido como queixa ou deman- da. E cada uma dessas palavras tem sentido muito particular, na medida em que compõem com o discur- so de orientação inglesa (queixa) ou francesa (deman- da). A partir daí, podemos imaginar que o problema ou sofrimento que passa a contar será tomado na rede de sentidos das teorias que o analista professa: como fantasia inconsciente, transferência, posição esquizo- paranoide ou depressiva, fala ou desejo imaginário, simbólico ou, como o real. Às vezes, numa aplicação direta do saber aprendido; às vezes, numa tradução um pouco mais sofisticada. Ora, como se pode notar, entre o dizer do cliente e o ouvir do terapeuta há um desconhecimento constituinte (estrutural, por assim dizer) de sentidos.

E, tudo isso é discurso. Discurso-ato-dispositivo (Guirado, 1986/2006), que vai desde a pertença ao grupo dos que sabem sobre o inconsciente e preparam

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    ambiente físico em que este será dito, experienciado

ou vivido na relação com o profissional, até as inter- pretações nossas de cada dia. Claro, sempre com a participação do paciente, o que porta o discurso da procura por atendimento e, nesse gesto, expõe-se à compreensão que dele tem o analista.

A PROPOSTA

Entre filósofos, linguistas e sociólogos, como posi- cionar uma proposta para pensar a psicologia e fazê-lo na qualidade de psicólogos?

Parece contra-senso falar em especificidade de atua- ção profissional e operar conceitualmente na interface com outras áreas do conhecimento. No entanto, como disse certa vez Maingueneau (2000), é preciso pensar com paradoxos. Ou ainda, só na interface marcam-se os limites do próprio. Vejamos.

Com o conceito de instituição com o qual traba- lhamos, podemos considerar a psicologia como insti- tuição do conhecimento e da prática profissional. Com

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    conceito de discurso como dispositivo-ato-insti-

tuição, podemos tomar o exercício da psicologia como discurso que produz e reproduz verdades, num jogo de forças poder-resistência. Fazemos, portanto, desses termos, que não se estranham, o quadro referencial, a estratégia de pensamento, para dizer do que se faz quando se diz fazer psicologia. Pensar a psicologia como instituição exige configurar-lhe um objeto, algo (imaterial, impalpável) em nome de que ela se exerce e sobre que reivindica monopólio de legitimidade.

Interação em Psicologia, Curitiba, jul./dez. 2009, (13)2, p. 323-333

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