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Diante da reconhecida e decantada diversidade de psicologias que a história de nossa disciplina e profis- são constituiu, torna-se necessário fazer um recorte intencional, uma escolha, para dizer de qual psicolo- gia falamos. Em nosso caso, optamos por um recorte que a aproxima da psicanálise e, daí, pudemos consi- derar como sendo seu objeto: as relações, mas não aquelas imediatamente observáveis, e sim, tal como percebidas, imaginadas, por aqueles que concreta- mente as fazem (Guirado, 1987/2004).

Esse objeto institucional dá destaque às relações. Ora, de quais relações falamos? Daquelas que faze- mos vida a fora, com direito a pensar nas relações significativas, com as figuras parentais, desde o “berço do quarto” que, segundo Freud, são também

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    berço de toda subjetividade e vida social possível

(Freud, 1921/1981b). De um lado, segundo a psicaná- lise, supõe-se que essas relações sejam imaginarizadas por aqueles que a vivem, criando o universo do psí- quico ou do psicológico. De outro, pode-se considerar que a família é uma instituição que se faz pela ação concreta de seus atores: pais, filhos e aproximados. Nesse caso, a história de vínculos de alguém se re- edita, historicamente, na singularidade de sua organi- zação e numa variação ou movimento de mudança inevitavelmente exigida, uma vez que as re-edições se fazem sempre na medida em que se ocupam lugares em outras instituições. Movimento, repetição, regulari- dade e singularidade: termos díspares, que de forma paradoxal, articulam-se para falarmos de um sujeito psíquico porque institucional, ou do matriciamento institucional do sujeito psíquico, ou ainda, da metáfora do sujeito-dobradiça (Guirado, 1987/2004, 1986/2006; Guirado & Lerner, 2007).

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    caráter denso e obscuro do parágrafo anterior se

tentará explicar a partir de agora. Mas, que se registre: ele traz a chave para o entendimento do modo de pen- sar que ora se propõe. Os exemplos mais uma vez se prestam ao esclarecimento. Imaginemos uma situação de sala de aula em que um aluno discorda do modo como o professor conduz seu curso, e o faz em voz alta, enquanto seus colegas em atento silêncio indi- cam, senão na totalidade pelo menos em parte signifi- cativa deles, concordar com sua fala. O aluno que discorda, muito provavelmente, re-edita, naquela situa- ção, o lugar que se viu e se vê ocupando nas relações que estabelece desde sempre em sua vida e, como tal, na mais absoluta singularidade de ser, que construiu historicamente. No entanto, o fez num movimento que se regra pelas particularidades do lugar de aluno, fa- lando a um professor. A cena assim constituída repõe

Interação em Psicologia, Curitiba, jul./dez. 2009, (13)2, p. 323-333

Psicologia Institucional: O Exercício da Psicologia Como Instituição

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as tensões de uma relação de poder, repõe o jogo de expectativas e dirige a um incerto ponto de desfecho a depender, sempre dos mesmos fatores: movimento, repetição, regularidades e singularidade. Tudo, histo- ricamente construído, tendendo ao reconhecimento de legitimidade de uma certa forma de se fazer o ensino e a aprendizagem.

A insistência na singularidade historicamente constituída é o tributo conceitual à psicanálise. A re- gularidade e a repetição, a ideia de lugares gestores de expectativas em atos que recolocam o jogo de forças e os procedimentos institucionais, justificam o operado- res conceituais fronteiriços a ela a que nos referimos anteriormente. E, como se procurou demonstrar, não se trata de justaposição de explicações sobre um fato inconteste, observável e portador de uma verdade natural e óbvia que se queira, no mínimo demonstrar. Trata-se, sim, da produção de um modo de explicar que permita, ele também, um trânsito pontual de uma sociologia, uma linguística e uma filosofia, para que com elas se opere, se produza, um modo de fazer psi- cologia. No mínimo, respiramos os ares das diferen- ças, para que não fechemos o circuito de uma institui- ção sobre si própria, para que não levemos à exaustão

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    exercício da mera repetição.

Com essa postura e nessa perspectiva, um con- ceito psicanalítico ganha destaque, como o próprio leitor já pode ter percebido à medida que falamos de reedições e repetições: o de transferência. Se, no en- tanto, prosseguimos pensando nas bordas de um co- nhecimento, devemos investir novos esforços para a sua reinvenção.

A transferência, termo criado por Freud para no- mear “uma classe de fenômenos psíquicos” que res- ponde pela atualização de padrões inconscientes de relações amorosas vividas no passado, e com outras pessoas, agora no presente (Freud, 1912/1981a). Essa ideia foi, no decorrer de toda sua obra, dita de dife- rentes maneiras, sem jamais comprometer seu sentido principal: re-edições ou fac-similes dos vínculos com as figuras significativas do início da vida, quando uma situação atual se mostrar conveniente. Tal repetição é a condição de análise nas neuroses, uma vez que os conflitos afetivos podem ser revividos com o médico, tornando-se ocasião para o conhecimento dos motivos inconscientes da conduta e, em função disso, orien- tando a interpretação.

Saindo do contexto em que originalmente esse termo fez sentido para ser pensado em outro, tanto da prática clínica quanto da produção teórica, para que não se faça uma extensão abusiva do conceito, é

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