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Marlene Guirado

necessário que se proceda a ajustes que o potencialize nesse novo contexto e sua rede discursiva.

Em certa ocasião escrevi sobre a exigência desses ajustes, sob pena de se incorrer no risco de a teoria funcionar como ponto-cego na escuta do analista (Guirado, 1986/2006).Em outra ocasião, ainda, sugeri a necessidade de uma reinvenção do conceito, mesmo na clínica da psicanálise, para que se ampliasse tal escuta. Isto, para inserir entre seus determinantes a ideia de que o discurso do analista faz parte do discur- so em análise e de que esse discurso pode transferir, para o contexto concreto de uma sessão, as teorias creditadas como verdade sobre o paciente, que assim se antepõem à sua fala (Guirado, 2000).

Com mais razão esse trabalho se mostra importan- te, quando saímos do setting consultorial para operar com os termos e procedimentos da psicanálise em outro contexto que não seja o seu de origem. O que implica essa reinvenção? Em primeiro lugar, preservar

  • o

    sentido de re-edição de lugares em relações que de

alguma forma marcam para a pessoa o reconheci- mento de si e de sua posição; mesmo que disso não se dê conta. Depois, considerar que a re-edição só se faz em relações, por sua vez instituídas, em meio a proce- dimentos e jogos de força e de produção de verdades, que também deixam sua marca.

A título de exemplo: o atendimento psicológico a internos da FEBEM (hoje, Fundação Casa) tem uma especificidade, mesmo considerando as diferenças que existem entre ele se dar no interior das Unidades da própria FEBEM, ou no âmbito físico dos Serviços que a Universidade presta à Comunidade. A clientela que atendemos desenvolve expectativas muito particu- lares em relação ao terapeuta e seu trabalho, desde a feitura de relatórios de liberação ao juiz, até mais uma ocasião de liberdade, de saída. Por sua vez, o terapeuta (em geral estagiário desses serviços) também desen- volve outras tantas expectativas (e medos, por que não?) em relação a este jovem que chega algemado ou se encontra em condições de privação de liberda- de numa Unidade com uma centena de outros jovens como ele, num pátio. Talvez, prisões ou amarras de cá e de lá marquem essa dupla, colocando um no lugar de quem atende e o outro do que será ou é atendido. Demandas à parte (como se isso fosse pos- sível), não há como operar com a ideia de transferên- cia estrito senso, quando o que se coloca no lugar de psicólogo-terapeuta tem pequeno grau de liberdade em relação aos seus próprios estranhamentos, e quan- do seu parceiro em cena faz um percurso tão diferente

daquele do cliente que procura um psicólogo em seu consultório...

Então não dá para trabalhar com essa clientela aos moldes da psicanálise? Claro que dá! Mas a psicanáli- se deverá fazer uma torção sobre seus pressupostos teóricos e seus procedimentos habituais, e isto, em princípio, na cabeça e na postura de seu agente (o terapeuta), ou o que se produzirá sob esse título corre- rá o risco de ser uma mimesis inócua e equivocada do que se propõe fazer (análise).

Sob qualquer justificativa, segundo a estratégia de pensamento que estamos propondo, será razoável o terapeuta entrar em cena levando o contexto imaginá- rio, por teoria ou por convicção de experiências coti- dianas exaustivamente repetidas, de um lugar de ana- lista acima da situação concreta. Isto o levará, muito provavelmente, a construir, também no plano imagi- nário, uma série de explicações que impliquem apenas

  • o

    seu cliente em todos os reveses desse atendimento

(por exemplo, ponderar e até interpretar como intimi- dação, feita pelo paciente ao analista, às raias da anu- lação do caráter analítico do processo e do próprio analista; ou então, como resistência do que suposta- mente se põe cliente). Impossível não considerar o quanto que o que pode ouvir do cliente está constituí- do pelos medos e amarras da diferença e do desafio não suficientemente esclarecidos que esta situação apresenta.

Finalmente, e no mínimo por uma questão de coe- rência argumentativa, retomamos agora a questão do sujeito que as práticas psicológicas produzem, que deixamos em suspenso, há alguns parágrafos. Nossa propositura, seguindo rigorosamente os argumentos, é a de que somente quando se consideram os “enlaça- mentos texto/contexto” (nas palavras de Maingueneau), ou os efeitos de reconhecimento e desconhecimentos da repetição nas relações institucionais, os lugares e a sobreposição de lugares quando duas práticas instituí- das se articulam, o peso dos procedimentos na natura- lização e legitimação de um discurso como ato e como instituição, é que se pode trabalhar, na sua singulari- dade, aquilo que nos fala e o como se apresenta, se mostra e se fala o cliente.

Daí, a importância conceitual de uma metáfora como a do sujeito-dobradiça. Com o movimento que as metáforas nos permitem, podemos dizer que o su- jeito das práticas psicológicas é esse singularmente constituído nas relações que faz, nos diferentes con- textos que, por sua vez fazem sua história desde o berço das (e nas) relações com as figuras que se lhe

Interação em Psicologia, Curitiba, jul./dez. 2009, (13)2, p. 323-333

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