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apresentam como significativas, até estas que, nas diferentes situações exemplares aqui retratadas, procu- ramos configurar.

Se considerarmos o objeto institucional da psicolo- gia como sendo as relações tal como reconhecidas, imaginadas pelos que as fazem, onde quer que traba- lhemos daremos foco à subjetividade que nessas rela- ções se constitui.

DIÁLOGOS COM A EXPERIÊNCIA E OUTROS DISCURSOS

Quando um psicólogo é convidado ou contratado para trabalhar numa instituição que não o consultório, essas ideias e termos têm um modo muito particular de constituir sua experiência. E o primeiro fator a considerar é o lugar que ocupa na ordem formal da- quela prática. Isto porque é a partir daí que será visto, reconhecido, pelos demais agentes e pela clientela bem como se reconhecerá e reconhecerá os outros grupos em seu fazer cotidiano. Poder-se-ia dizer que esse lugar lhe confere um campo de visão e de visibi- lidade no imaginário daquela instituição; e, ao mesmo tempo e ato, o âmbito discursivo possível do serviço que poderá prestar.

Nada que não se possa mover, à medida que tal trabalho se exerce. Mas, esse movimento exige a rigo- rosa disciplina de pensar, sempre, as direções de suas ações e as desses outros parceiros de lida diária. E quando se fala em mudança ou alteração, supõe-se que ela ocorra fundamentalmente na postura e na perspectiva do psicólogo; e não, como se costuma imaginar, que o psicólogo deva transformar a realida- de, como se fosse dele, o lugar predestinado à crítica e alteração dos outros. Até porque, se ao fazer sua psi- cologia ele se dispõe a constantemente repensar o que e como se move nas relações instituídas, estará mobi- lizando um campo de forças e forçando um caminho na contramão das repetições e automatismos caracte- rísticos das instituições. É assim que o desenho da profissão se diferencia. E, como faz parte das práticas institucionais, estas se alteram.

Disse uma vez que psicologia institucional e oni- potência não combinam... De certa maneira, concor- damos aqui com o que apresenta Lapassade: se algum profissional se atribui a função de liberar a palavra social de um outro grupo, quebra, na base, as possibi- lidades de esse grupo se apropriar de sua palavra e assim, a burocracia, como uma questão de divisão no poder, se instaura no próprio trabalho do analista ins- titucional.

Interação em Psicologia, Curitiba, jul./dez. 2009, (13)2, p. 323-333

Psicologia Institucional: O Exercício da Psicologia Como Instituição

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De certa maneira, também, com essa concepção, revemos as colocações de Bleger sobre a função social do psicólogo, como uma espécie de convocação moral à ação transformadora da realidade. A condição de mudança não está voltada para fora ou justaposta ao exercício da psicologia. Não é uma exigência moral. É uma ética intrínseca a esse exercício; é responder ao perigo representado pelas repetições inaudíveis e dis- cretas de procedimentos, de discursos, consagrados, naturalizados, legitimados.

E já que voltamos a Bleger, uma questão delicada sempre retorna, quando da leitura de seu texto: segun- do ele, o psicólogo institucional deve trabalhar na condição de assessor, para que seja garantida a auto- nomia técnica. Como o contrato na qualidade de as- sessor é raro e destinado a poucos profissionais, mais antigos e com uma experiência especificamente reco- nhecida, não recairíamos numa quase impossibilidade da própria psicologia institucional? Sim, porque os recém-formados, dificilmente seriam contratados na condição de assessores; entrariam como psicólogos, no organograma, ao lado de outros técnicos como educadores-orientadores, assistentes sociais fisiotera- peutas e assim por diante. Desse modo, a possibilida- de de trabalhar com a autonomia do assessor, junto aos seus pares e junto à direção, estaria comprometi- da, pois não seria reconhecido como quem pudesse ser autorizado para tanto.

A bem da verdade, um lugar assim delimitado, de- termina, de certa forma, a apreensão que ele poderá ter do conjunto das relações instituídas. Será na qualidade de técnico, submetido às exigências características de seu cargo, em relação aos outros grupos institucionais que fará parte do imaginário ali constituído.

Que fazer, então? Recusar todos os ensinamentos da Psicologia Institucional? Não propriamente. Se retomássemos a ideia de retirá-la da concepção de que seria uma área da psicologia, ao lado de outras como a escolar, a organizacional, a clínica, a experimental, a comunitária, estaríamos em vias da concepção de uma estratégia para pensar o que pode a psicologia produ- zir em seu exercício. Tomar, portanto, a Psicologia Institucional (se ainda se quisesse preservar o nome) como método, como estratégia de pensamento, ao invés de tomá-la como mais uma área de atuação com métodos próprios.

Por tal caminho, chegaríamos a considerar que o psicólogo, mesmo contratado por 40 horas semanais ou encaixado no lugar de técnico pelo organograma, poderia proceder a seu trabalho tendo como regra de ouro os “cortes que fazem pensar”. Isto implica a

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