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comportamento o e pensamento de alguns personagens de O Quinze permitindo-nos uma análise na perspectiva das relações de gênero:

[...] Quando Vicente se despediu, e montou ligeiro no cavalo que arrancou de galope, Conceição estirou-se na rede e ficou olhando o vulto branco que a poeira ruiva envolvia, até o ver se sumir atrás de uma grupo de umarizeiras da várzea. Todo o dia a cavalo, trabalhando, alegre e dedicado, Vicente sempre fora assim, amigo do mato, do sertão, de tudo que era inculto e rude. Sempre o conhecera querendo ser vaqueiro como um caboclo desambicioso, apesar do desgosto que com isso sentia a gente dele. E a moça lembrou-se de certa vez, em casa do Major, no dia em se inaugurou o gramofone, e as meninas, e ela própria, que também estava lá, puseram-se a dançar. Os pares eram o filho mais velho da casa – hoje casado e promotor no Cariri – e dois outros rapazes, colegas dele, que tinham vindo passar férias no sertão. Mal começou a dança, entrou Vicente, encourado, vermelho, com o guarda-peito encarnado desenhando-lhe o busto forte e as longas perneiras ajustadas ao relevo poderoso das pernas. A conceição, pareceu que uma rajada de saúde e de força invadia subitamente a sala, purificando-a do falsete agudo do gramofone, das reviravoltas estilizadas dos dançarinos. Mas a mãe dele, que sentada do sofá apreciava a dança, vendo-o, enxergou apenas o contraste deprimente da rudeza do filho com o pracianismo dos outros, de cabelo empomadado, calças de vinco elegante, e camisa fina por baixo da camisa caseira. Já Vicente enlaçava a prima que, rindo, saiu dançando orgulhosa do cavalheiro, enquanto, na ponta do sofá, a pobre senhora sentiu os olhos cheios de lágrimas, e ficou chorando pelo filho tão bonito, tão forte, que não se envergonhava da diferença que fazia do irmão doutor e teimava em não querer “ser gente”... (QUEIROZ, 2006, p.20-22)

Mais que mera história de um amor irrealizado da mocinha que lê romances franceses e sonha com o primo, moço rude entregue ao trabalho árduo de cuidar de gado, a narrativa de Conceição e Vicente é a história de um desencontro amoroso proposital.

Rachel de Queiroz revelou uma percepção de extrema sutileza ao encaminhar distintamente

  • o

    destino deste casal, cujo enredo em outro romance teria o típico final em que o mocinho casa-se

com a mocinha, nesta perspectiva sua narrativa abre uma discussão sobre a questão de gênero.

Inicialmente os sentimentos de um personagem para com o outro são descritos como se a possibilidade do casamento entre eles fosse realmente concreta. Porém, se Vicente rompia com a tradicional cultura de que o estudo formava homens de verdade, Conceição rompia com a cultura de que a realização da mulher estava no casamento.

Desta forma, ambos seguem por caminhos diferentes na narrativa construída por Rachel de Queiroz, e o destino comum desses personagens que antes parecia inevitável aos olhos do leitor, torna-se ao final impossível. Conceição não fica com Vicente, enquanto Vicente não quer mais Conceição, na verdade ambos sentem a incompatibilidade existente entre eles.

Primeiro Conceição olhava para o primo Vicente admirando-lhe a altura, a beleza e a força. Ele parecia aos olhos de Conceição o homem forte do sertão, de beleza sadia e agreste, tostado de sol, respirando energia e saúde (QUEIROZ, 2006, p.81), porém, como descreve Rachel de Queiroz, logo sua personagem percebeu que Vicente não era mais que uma bela paisagem, Conceição

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