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  

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A mulher levantou-se, afastando o menino que lhe repuxava as abas do casaco, pedindo mama. Gritou para a irmã, que estava lá na cozinha:

  • -

    Ô Mocinha! Vê se tu dás um pirão de peixe a este menino que anda em tempo de me comer os peitos!

Depois indo pro marido:

  • -

    Como se foi, Chico? Trouxe o dinheiro e as passagens?

  • -

    Que passagens! Tem de ir tudo é por terra mesmo, feito animal! Nesta desgraça quem é que arranja nada!

Deus só nasceu pros ricos! Cordulina viu pelo bafo do marido e pela fúria das apóstrofes, tão desacostumadas do natural sossegado, que ele tinha bebido demais. E interpelou-o:

  • -

    Mas, Chico, pra que é que você toma, quando vai no Quixadá? Toda vez que vem de lá é nesse jeito!

  • -

    Besteira mulher!... Tomei nada! Matei o bicho! A vontade que eu tinha era estar mesmo bebinho, pra me

esquecer de tudo quanto é desgraça!... [...] (QUEIROZ, 2006, p.35-36)

E no seguinte encontramos o casal depois de alguns dias de caminhada sob o sol do sertão

seco:

[...] Eles tinham saído na véspera, de manhã, da Canoa. Eram duas horas da tarde. Cordulina, que vinha quase cambaleando, sentou-se numa pedra e falou, numa voz quebrada e penosa:

  • -

    Chico, não posso mais... acho até que vou morrer. Dá-me aquela zoeira na cabeça!

Chico Bento olhou dolosamente a mulher. O cabelo, em falripas sujas, como que gasto, acabado, caía por cima do rosto, envesgando os olhos, roçando na boca. A pele, empretecida como uma casca, pregueava nos braços e nos peitos, que o casaco e a camisa rasgada descobriam. A saia roída se apertava na cintura em dobras sórdidas; e se enrolava nos ossos das pernas, como um pano posto a enxugar se enrola nas estacas da cerca. Num súbito contraste, a memória do vaqueiro confusamente começou a recordar a Cordulina do tempo do casamento. Viu-a de branco, gorda e alegre, com um ramo de cravos no cabelo oleado e argolas de ouro nas orelhas... Depois sua pobre cabeça dolorida entrou a tresvariar; a vista turbou-se como as idéias, confundiu as duas imagens, a real e a evocada, e seus olhos visionaram uma Cordulina fantástica, magra como a morte, coberta de tantos panos brancos, pendendo-lhe das orelhas duas argola de ouro, que cresciam, cresciam, até atingir o tamanho do sol. [...] (QUEIROZ, 2006, p.69-71)

Como podemos notar pelos fragmentos que selecionamos para análise, é impossível tratar das questões de gênero em O Quinze sem falar do ambiente da seca que envolve os personagens. O sertão de Raquel de Queiroz é antes de tudo a caatinga na época da seca, é o sertão sob o sol, que lá do céu longínquo, sozinho, rutilante, espalha sobre a terra cinzenta e seca sua luz que é quase fogo.

É o sertão em que Vicente, em seu cavalo pedrês, atravessa, de estrada vermelha e pedregosa, orlada pelas galhas negras da caatinga morta, os cascos do cavalo chegam a tirar fogo nos seixos do caminho, as lagartixas dão carreirinhas intermitentes por cima das folhas secas que estalam como papel queimado. O céu desse sertão é quase sempre transparente e vibrante, tremendo como uma gaze repuxada. O verde, na monotonia cinzenta da paisagem, é só de algum juazeiro que ainda escapa da devastação das ramas, no geral, na descrição da autora, “as árvores aparecem lamentáveis, mostrando os cotos dos galhos como membros amputados e a casca toda raspada em grandes zonas brancas, e o chão era uma confusão desolada de galhos secos, cuja agressividade ainda mais se acentuava pelos espinhos” (QUEIROZ, 2006, p. 17-18).

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