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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 100 / 128

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Segundo Lopsang, durante os quinze ou vinte minutos que Fis­cher passou no cume, queixou-se várias vezes de que não estava se sen­tindo bem — coisa que o estoicismo congênito do guia raramente lhe permitia fazer. "Scott me diz: 'Estou cansado demais. Também estou doente, preciso remédio para estômago'", relembra o sherpa. "Eu dei chá, mas ele bebeu só um pouquinho, só meia caneca. Aí eu digo a ele: 'Scott, por favor, desce depressa'. Aí nós descemos."

Fischer foi na frente, por volta das 15h55. Lopsang relata que embora Scott tivesse usado oxigênio suplementar durante toda a subida e que seu terceiro cilindro ainda estivesse mais de três quartos cheio, ao deixar o cume por algum motivo ele tirou a máscara e parou de usá-la.

Pouco depois que Fischer deixou o topo, Gau e seus sherpas tam­bém saíram de lá e, enfim, Lopsang começou a descer - deixando Hall sozinho no cume, à espera de Hansen. Momentos depois que Lopsang começou a descida, lá pelas 16h00, Hansen apareceu, movendo-se penosa e lentamente por sobre a última saliência da crista. Assim que viu Hansen, Hall apressou-se para ir encontrá-lo.

O prazo obrigatório determinado por Hall para que todos voltas­sem de onde estivessem já se esgotara há duas horas. Tendo em vista a natureza conservadora e por demais metódica do guia, muitos colegas manifestaram espanto total diante dessa falha de julgamento. Por que Hall não obrigou Hansen a voltar bem antes, assim que ficou óbvio que o alpinista americano estava atrasado?

Exatamente um ano antes, Hall obrigara Hansen a voltar do cume sul às 14h30. Ver o cume tão perto e não poder chegar lá foi uma decep­ção tremenda para Hansen. Ele me dissera várias vezes que tinha vol­tado ao Everest em 1996 devido à insistência de Hall - disse que Rob ligara para ele, da Nova Zelândia, "uma dúzia de vezes" insistindo para que tentasse de novo - e dessa vez Doug estava absolutamente decidido a chegar ao topo. "Quero acabar com isso e tirar o Everest de minha vida", ele me dissera três dias antes, no acampamento 2. "Eu não quero ter que voltar aqui. Estou ficando velho demais para isso."

Não parece exagero especular que, por ter obrigado Hansen a vol­tar antes de chegar ao pico do Everest, Rob Hall estivesse achando especialmente difícil negar-lhe o cume uma segunda vez. "É muito duro mandar alguém voltar lá de cima", diz Guy Cotter, um guia neo­zelandês que chegou ao cume do Everest junto com Hall, em 1992, e era um dos guias da expedição de 1995, em que Hansen fez sua primei­ra tentativa. "Se um cliente vê que o pico está próximo e está decidido a chegar lá, ele vai rir na sua cara e continuar subindo." Como disse o veterano guia norte-americano Peter Lev à revista Climbing, depois desse desastre no Everest: "A gente acha que as pessoas nos pagam para tomar as decisões corretas, mas na verdade elas nos pagam para chegar ao topo".

Seja como for, Hall não obrigou Hansen a voltar por volta das 14h00 - nem às 16h00 tampouco, quando foi ao encontro de seu clien­te logo abaixo do pico principal. Em vez disso, segundo Lopsang, Hall colocou o braço de Hansen em volta de seu pescoço e auxiliou o exaus­to cliente durante os doze metros finais até o cume. Os dois ficaram ape­nas um ou dois minutos, depois começaram a longa descida.

Quando Lopsang viu que Hansen estava mal, diminuiu o ritmo de sua própria descida o suficiente para ter certeza de que Doug e Rob tinham atravessado um trecho de blocos de gelo suspenso, particularmente perigoso, logo abaixo do cume. Em seguida, ansioso por alcan­çar Fischer, que estava agora a mais de trinta minutos na frente dele, o sherpa continuou a descer a crista, deixando Hansen e Hall no topo do escalão Hillary.

Logo depois que Lopsang desapareceu pelo escalão, o oxigênio de Hansen acabou e ele desmoronou. Gastara até a última gota de ener­gia para alcançar o cume — e agora não havia reserva nenhuma para a descida. "Aconteceu quase a mesma coisa com Doug em 95", diz Ed Viesturs que, assim como Cotter, estava guiando a escalada ao pico aquele ano. "Ele foi bem durante a subida, mas assim que começamos a descer fraquejou, mental e fisicamente; virou um zumbi, como se tivesse esgotado tudo."

Às 16h30 e, de novo, às 16h41, Hall transmitiu por rádio que ele e Hansen estavam tendo problemas no topo da crista do cume e precisa­vam de oxigênio com urgência. Havia duas garrafas cheias à espera deles no cume sul; se Hall tivesse sabido disso, poderia ter ido pegá-las e subido de novo para dar

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