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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 101 / 128

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uma nova garrafa a Hansen. Porém Andy Har­ris, ainda no depósito de cilindros de oxigênio, em meio a sua crise de demência anóxica, ouviu esses chamados de rádio e interrompeu para dizer a Hall — incorretamente, da mesma forma que fizera comigo e com Mike Groom - que todas as garrafas do cume sul estavam vazias.

Groom ouviu a conversa entre Harris e Hall em seu rádio, enquan­to descia a crista sudeste com Yasuko Namba, logo acima da Balcony. Tentou chamar Hall para corrigir a informação errada e avisá-lo de que na verdade havia cilindros cheios de oxigênio esperando por ele no cume sul, entretanto "meu rádio estava funcionando mal. Eu conseguia receber quase todos os chamados, mas quando eu chamava quase nin­guém me ouvia. Nas duas ou três ocasiões em que meus chamados esta­vam sendo ouvidos por Rob, tentei lhe dizer onde estavam os cilindros cheios, mas logo era interrompido por Andy, dizendo que não havia oxigênio nenhum no cume sul".

Incerto sobre se havia ou não oxigênio para ele, Hall decidiu que a melhor coisa a fazer era permanecer ao lado de Hansen e tentar levá-lo para baixo, mesmo naquele estado deplorável. Porém, quando chegaram ao topo do escalão Hillary, Hall não conseguiu descer Hansen pelos doze metros de inclinação quase vertical e os dois pararam ali.

Pouco antes das 17h00, Groom enfim conseguiu entrar em conta­to com Hall e comunicou-lhe que na verdade havia oxigênio no cume sul. Quinze minutos depois, Lopsang chegou ao cume sul e encontrou Harris. (36) Nessa altura, segundo Lopsang, Harris devia ter entendido que havia pelo menos dois cilindros de oxigênio cheios, porque pediu ao sherpa para ajudá-lo a carregar as garrafas até Hall e Hansen, no esca­lão Hillary. "Andy me diz que vai pagar quinhentos dólares para mim para levar oxigênio para Rob e Doug", Lopsang contou. "Mas eu tenho que tomar conta só do meu grupo. Tenho que tomar conta de Scott. Então digo a Andy, não, vou descer rápido."

Às 17h30, quando Lopsang deixou o cume sul para continuar a descida, virou-se e viu Harris — que devia estar seriamente debilitado, caso as condições em que eu o vira, duas horas antes, fossem indicação de seu estado - caminhando devagar na direção da crista do cume para ajudar Hall e Hansen. Foi um ato de heroísmo que lhe custou a vida.

Uns cem metros abaixo, Scott Fischer batalhava para descer a crista sudeste, cada vez mais fraco. Ao chegar na altura dos degraus de rocha, a 8656 metros, viu-se diante de uma série de rappels curtos porém complicados, que desciam obliquamente pela crista. Exausto demais para lidar com as complexidades do trabalho de corda, Fischer preferiu escorregar sentado por uma encosta de neve vizinha. Isso era bem mais fácil que seguir as cordas fixas, mas uma vez abaixo do nível dos degraus de rocha, teria que fazer uma penosa travessia subindo cem metros com neve até os joelhos, para retomar a rota.

Da Balcony, Tim Madsen, que descia com o grupo de Beidleman, deu uma olhada para cima por volta das 17h20 e viu Fischer começan­do a travessia. "Ele parecia realmente cansado", lembra-se Madsen. "Dava dez passos, sentava para descansar, dava mais alguns passos e parava de novo. Estava indo muito devagar. Mas eu estava vendo Lop­sang acima dele, descendo a crista e imaginei que, com Lopsang ali para tomar conta, Scott não teria problemas."

Segundo Lopsang, ele alcançou Fischer por volta das 18h00, logo acima da Balcony: "Scott não está usando oxigênio, então pus a más­cara nele. Ele me diz: 'Estou muito doente, muito doente para descer. Eu vou pular'. Ele diz isso várias vezes, agindo como um louco, de modo que eu amarro ele na corda, depressa, senão ele pula para o Tibete".

Segurando Fischer com uma corda de 22 metros de comprimento, Lopsang convenceu seu amigo a não pular e, em seguida, conseguiu que ele começasse a se mover lentamente na direção do colo sul. "A tempestade agora muito forte", Lopsang relembra. "Bum! Bum! Duas vezes, como barulho de canhão, um trovão muito forte. Duas vezes raio bateu bem perto de mim e de Scott, muito alto, muito medo."

A noventa metros da Balcony, a suave vala de gelo que eles vinham descendo com pressa cedeu lugar a afloramentos de xisto solto, de inclinação íngreme, e Fischer não era capaz de atravessar esse tre­cho naquele estado debilitado. "Scott já não consegue andar, eu tenho um problema grande nas mãos", diz Lopsang. "Tento carregar Scott, mas também estou muito cansado. Scott tem corpo grande,

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