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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 102 / 128

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eu pequeno; não posso carregar ele. Ele diz para mim: 'Lopsang, você desce. Desce'. Eu digo para ele: 'Não, eu fico aqui com você'."

Às 20h00, Lopsang continuava ao lado de Fischer, numa platafor­ma coberta de neve, quando Makalu Gau e seus dois sherpas surgiram da nevasca que uivava por todos os lados. Gau estava quase tão fraco quanto Fischer e, assim como Fischer, incapacitado de descer os difíceis trechos de xisto, de modo que seus sherpas puseram o alpinista taiwa­nês sentado ao lado de Lopsang e Fischer, e continuaram sem ele.

"Eu fico com Scott e Makalu uma hora, quem sabe mais'', diz Lopsang. "Estou com muito frio, muito cansado. Scott me diz: 'Você desce, manda o Anatoli subir'. Eu então digo: 'Certo, eu desço, mando um sherpa rápido e o Anatoli'. Aí arrumei um bom lugar para Scott e desci."

Lopsang deixou Fischer e Gau numa plataforma 365 metros aci­ma do colo sul e desceu em meio à tempestade. Sem conseguir ver nada, saiu completamente fora da rota, na direção oeste e acabou indo parar abaixo do nível do colo, até que percebeu o erro e teve que escalar de volta pela margem norte do flanco do Lhotse (37) para localizar o acampa­mento 4. Por volta da meia-noite conseguiu chegar. "Eu digo a Anatoli: 'Por favor, você sobe, Scott está muito doente, não consegue andar'. Aí vou para minha barraca e caio no sono, feito morto."

Guy Cotter, amigo antigo tanto de Hall como de Harris, estava a alguns quilômetros do acampamento-base do Everest na tarde de 10 de maio, guiando uma expedição ao Pumori, e monitorou as transmissões de rádio feitas por Hall durante aquele dia todo. Às 14h15 ele falou com Hall no cume e tudo parecia bem. Às 16h30 e às 16h41, contudo, Hall chamou a base para dizer que Doug estava sem oxigênio e incapaz de se mexer, e Cotter ficou muito alarmado. Às 16h53 ele pegou o rádio e insistiu veementemente com Hall para que descesse até o cume sul. "A chamada foi mais para convencê-lo a descer e pegar oxigênio", diz Cot­ter, "porque sabíamos que não seria possível fazer qualquer coisa por Doug sem ele. Rob disse que ainda estava em condições de descer, mas não com Doug."

Porém, quarenta minutos depois, Hall continuava com Doug Hansen no topo do escalão Hillary. Durante as chamadas de rádio fei­tas por Hall, às 17h36 e, de novo, às 17h57, Cotter implorou ao amigo para que deixasse Hansen e descesse sozinho. "Eu sei que isso parece canalhice de minha parte, dizer a Rob para abandonar seu cliente", con­fessou Cotter, "mas àquela altura estava óbvio que deixar Doug era sua única escolha." Hall, entretanto, nem quis ouvir falar em descer sem Hansen.

Não houve mais nenhuma comunicação de Hall até o meio da noite. Às 2h46, Cotter acordou em sua barraca abaixo do Pumori e ouviu uma longa e entrecortada transmissão, que provavelmente não era para ser ouvida: Hall usava um microfone de captação remota pre­so à alça de sua mochila que, de vez em quando, entrava em ação por engano. Nessa ocasião, diz Cotter, "suspeito que Rob nem sequer sabia que estava transmitindo. Eu ouvia alguém berrando - poderia ser Rob, mas não dá para ter certeza porque o vento estava fazendo muito baru­lho no fundo. Mas ele estava dizendo alguma coisa como 'continua andando! continua andando!', talvez para Doug, para incentivá-lo".

Se isso aconteceu de fato, então nas primeiras horas da madruga­da Hall e Hansen — talvez acompanhados por Harris — ainda estavam tentando descer do escalão Hillary até o cume sul através do vendaval. E, nesse caso, isso significa que eles levaram mais de dez horas para descer um trecho da crista que qualquer alpinista levaria menos de meia hora.

Claro que tudo isso é pura especulação. Tudo que se sabe é que Hall chamou pelo rádio às 17h57. Àquela altura, ele e Hansen ainda estavam no escalão Hillary; e que às 4h43 da madrugada do dia 11 de maio, quando falou de novo com o acampamento-base, tinha descido até o cume sul. E que, naquele ponto, nem Hansen nem Harris estavam com ele.

Numa série de transmissões nas duas horas seguintes, Rob pare­cia muito confuso e irracional. Durante a chamada das 4h43, ele disse a Caroline Mackenzie, nossa médica no acampamento-base, que suas pernas não funcionavam mais e que ele estava "muito desajeitado para andar". Num fiapo de voz, que mal dava para ouvir, Rob falou: "Harold estava comigo ontem à noite, mas parece que não está mais. Ele estava muito fraco". Depois, obviamente atordoado, perguntou: "Harold esta­va comigo? Vocês sabem se ele estava?". (38)

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