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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 103 / 128

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Nessa altura Hall tinha à disposição dois cilindros cheios de oxi­gênio, mas as válvulas de sua máscara estavam tão entupidas de gelo que ele não conseguia fazer o oxigênio fluir. Entretanto deu a entender que estava tentando descongelar o aparelho e "isso", diz Cotter, "dei­xou todos nós com uma sensação um pouco melhor. Era a primeira coisa positiva que ouvíamos há horas".

Às 5h00, o acampamento-base fez uma conexão telefônica via satélite com Jan Arnold, mulher de Hall, em Christchurch, Nova Zelân­dia. Ela escalara o Everest com Hall em 1993 e não tinha nenhuma ilu­são quanto à gravidade da situação do marido. "Meu coração realmen­te apertou quando ouvi a voz dele", ela conta. "Ele estava enrolando demais as palavras. Parecia que estava flutuando, indo embora. Eu já tinha estado lá em cima; eu sabia o que aquilo pode virar com tempo ruim. Rob e eu já havíamos conversado sobre a impossibilidade de resgate na crista do cume. Como ele próprio disse: 'É a mesma coisa que estar na Lua'."

Às 5h31, Hall tomou quatro miligramas de dexametasona por via oral e deu a entender que ainda estava tentando retirar o gelo da másca­ra de oxigênio. Falando com o acampamento-base, ele perguntou repe­tidas vezes sobre o estado de Makalu Gau, Fischer, Beck Weathers, Yasuko Namba e de seus outros clientes. Parecia mais preocupado com Andy Harris e insistia muito, querendo saber onde estava. Cotter diz que eles tentaram desviar o assunto de Harris, que com toda certeza estava morto, "porque não queríamos que Rob tivesse mais nenhum motivo para ficar lá em cima. Numa determinada altura Ed Viesturs interveio pelo rádio, do acampamento 2 e mentiu: 'Não se preocupe com Andy; ele está aqui conosco'".

Um pouco depois, Caroline Mackenzie perguntou a Rob como Hansen estava. "Doug", Hall respondeu, "se foi." Foi tudo que falou e não mencionou mais o nome de Hansen.

A 23 de maio, quando David Breashears e Ed Viesturs chegaram ao cume, não encontraram sinal do corpo de Hansen; encontraram, contudo, um piolet enterrado a cerca de quinze metros verticais acima do cume sul, ao longo de um trecho muito exposto da crista, onde as cordas fixas acabavam. É muito possível que Hall e/ou Harris tenham conseguido descer Hansen pelas cordas até esse ponto, apenas para vê-lo perder o pé e despencar 2130 metros pelo flanco sudoeste, deixando seu piolet enterrado na saliência onde escorregou. Mas também isso é mera conjectura.

O que pode ter acontecido com Harris é ainda mais difícil de saber. Entre o testemunho de Lopsang, as chamadas de rádio feitas por Hall e o fato de que um outro piolet encontrado no cume sul foi identificado como sendo o de Andy, podemos ter uma certeza razoável de que ele estava no cume sul com Hall na noite de 10 de maio. Além disso, no entanto, quase nada se sabe sobre como o jovem guia morreu.

Às 6h00, Cotter perguntou a Hall se o sol já o alcançara. "Quase", Rob respondeu — o que era um bom sinal, porque momentos antes ele mencionara que estava tremendo descontroladamente por causa do frio terrível. Em conjunto com sua revelação anterior, de que não estava mais conseguindo andar, essa foi uma notícia alarmante para as pessoas que o escutavam lá embaixo. Ainda assim, era extraordinário que Hall continuasse vivo, depois de passar uma noite sem abrigo nem oxigênio a 8747 metros de altitude, em meio a um furacão e com um fator vento que baixava a temperatura para — 73ºC.

Durante essa mesma conversa por rádio, Hall perguntou por Har­ris de novo: "Alguém mais viu Harris ontem à noite, fora eu?". Cerca de três horas depois, Rob ainda continuava obcecado com o paradeiro de Andy. Às 8h43, ele comentou pelo rádio: "Algumas coisas de Andy ainda estão aqui. Acho que ele deve ter ido na frente, à noite. Escuta, vocês sabem dele ou não?". Helen Wilton tentou driblar a pergunta, mas Rob insistiu na mesma linha: "Certo. O que estou querendo dizer é que o piolet dele está aqui, e a jaqueta e umas outras coisas".

"Rob", Viesturs respondeu do acampamento 2, "se você conse­guir pôr a jaqueta, ponha. Continue descendo e preocupe-se apenas com você. Todos os demais estão cuidando dos outros. Desça e pare de se preocupar."

Depois de batalhar durante horas para descongelar a máscara, Hall finalmente conseguiu fazê-la funcionar e, por volta das 9h00, esta­va respirando oxigênio suplementar pela primeira vez; àquela altura passara mais de dezesseis horas acima dos 8746 metros sem oxigênio. Centenas de metros

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