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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 104 / 128

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abaixo, seus amigos aumentaram os esforços para convencê-lo a descer. "Rob, aqui é Helen, do acampamento-base", cha­mou Helen Wilton, com voz de quem está à beira do choro. "Vê se pen­sa naquele seu bebezinho. Você vai ver a carinha dele daqui uns meses,

continue descendo."

Por várias vezes Hall anunciou que estava se preparando para des­cer e num determinado momento estávamos certos de que ele finalmen­te saíra do cume sul. No acampamento 4, Lhakpa Chhiri e eu tremía­mos do lado de fora das barracas, espiando um minúsculo ponto se deslocando vagarosamente, descendo a parte superior da crista sudes­te. Convencidos de que se tratava de Rob, voltando afinal, Lhakpa e eu batemos nas costas um do outro e o aplaudimos. Porém, uma hora mais tarde, meu otimismo de repente se extinguiu quando reparei que o pon­tinho continuava no mesmo lugar: na verdade não passava de uma rocha — mais uma alucinação induzida pela altitude. Na verdade, Rob não chegara sequer a sair do cume sul.

Por volta das 9h30, Ang Dorje e Lhakpa Chhiri saíram do acam­pamento 4 e começaram a escalada, rumo ao cume sul, com uma garra­fa térmica de chá quente e dois cilindros extras de oxigênio, com a intenção de resgatar Hall. Teriam pela frente uma tarefa absolutamen­te fantástica. Por mais impressionante e corajoso que tivesse sido o ato de Boukreev, na noite anterior, ao salvar Sandy Pittman e Charlotte Fox, o feito empalidecia diante do que os dois sherpas estavam se pro­pondo a fazer agora: Pittman e Fox estavam a vinte minutos das barra­cas, em terreno relativamente plano; Hall estava a 914 metros verticais do acampamento 4 - uma exaustiva escalada de oito ou nove horas, na melhor das circunstâncias.

E aquelas não eram, com certeza, as melhores das circunstâncias. O vento soprava a mais de quarenta nós. Tanto Ang Dorje quando Lhak­pa estavam sentindo muito frio e, além do mais, exaustos por terem subido até o topo e descido um dia antes. Se por acaso conseguissem chegar até Hall isso seria no final da tarde, deixando apenas uma ou duas horas de luz para começar a provação ainda mais difícil de descê-lo de lá. No entanto a lealdade que tinham por Hall era tamanha que os dois homens ignoraram as pouquíssimas chances que havia de salvá-lo e partiram em direção ao cume sul o mais rápido que conseguiram.

Pouco depois disso, dois sherpas da equipe da Mountain Madness — Tashi Tshering e Ngawang Sya Kya (um homem pequeno, esguio, de têmporas grisalhas, pai de Lopsang) e um sherpa da equipe taiwanesa começaram a subida para trazer Scott Fischer e Makalu Gau. 365 metros acima do colo sul os três sherpas encontraram os alpinistas inca­pacitados na plataforma onde Lopsang os deixara. Embora tivessem tentado dar oxigênio a Fischer, ele não reagiu. Scott ainda estava respi­rando, mal e mal, porém seus olhos estavam parados nas órbitas e os dentes cerrados com firmeza. Concluindo que era caso perdido, os sherpas deixaram Scott Fischer na plataforma e começaram a descer com Gau, que após ter tomado chá quente, recebido oxigênio e um con­siderável auxílio dos três sherpas, foi capaz de descer com as próprias pernas até as barracas, repesado numa corda.

O dia começara claro e ensolarado, porém o vento continuava feroz e, no final da manhã, a parte superior da montanha estava envolta em grossas nuvens. Do acampamento 2 a equipe da imax informou que o vento no cume soava como um esquadrão de jatos 747, mesmo ali, 2133 metros abaixo. Enquanto isso, já no alto da crista sudeste, Ang Dorje e Lhakpa Chhiri continuavam firmes, atravessando a tempesta­de que piorava, na direção de onde estava Hall. Às 15h00, entretanto, ainda a 213 metros abaixo do cume sul, o vento e a temperatura muito fria foram demais para eles; os sherpas não conseguiram ir adiante. Foi um esforço valoroso - porém fracassado - e, quando deram meia-volta, as chances de Hall sobreviver praticamente desapareceram.

Durante todo o dia 11 de maio, seus amigos e companheiros de equipe imploraram para que fizesse um esforço e tentasse descer sozi­nho. Várias vezes Hall anunciou que estava se preparando para descer, mas depois mudava de idéia e continuava imóvel no cume sul. Às 15h30, Cotter - que a essa altura subira de seu acampamento, abaixo do Pumori, até o acampamento-base do Everest - ralhou com ele pelo rádio: "Rob, mexa-se, comece a descer a crista".

Parecendo zangado, Hall retrucou: "Escuta, se eu achasse que ia conseguir manejar os nós das cordas fixas com minhas mãos assim con­geladas, eu já teria descido seis horas atrás, cara. Me mande uns dois rapazes com uma grande garrafa térmica de algo quente - aí vou ficar bom".

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