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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 106 / 128

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lado tibetano do pico, via crista nordeste — pela mesma rota na qual George Leigh Mallory e Andrew Irvine desapare­ceram em 1924.

Tendo um acampamento avançado a 8300 metros de altitude, eles só foram sair das barracas às 5h45. (39) Seis integrantes da equipe parti­ram. Lá pelo meio da tarde, ainda a mais de trezentos metros verticais do topo, foram engolfados pelas mesmas nuvens que nós encontramos do outro lado da montanha. Três deles desistiram e voltaram lá pelas 14h00, porém Smanla, Paljor e Morup continuaram subindo, apesar da piora no tempo. "Estavam tomados pela febre do cume", explica Harb­hajan Singh, um dos três que voltaram.

Os outros três atingiram o que acreditavam ser o cume às 16h00, momento em que a densidade das nuvens já reduzira a visibilidade a trinta metros, se tanto. Eles mandaram uma mensagem por rádio a seu acampamento-base, no glaciar Rongbuk, para dizer que estavam no topo. Com essa informação, o líder da expedição, Mohindor Singh, fez um telefonema via satélite para Nova Delhi e com orgulho relatou o triunfo ao primeiro-ministro Narashima Rao. Comemorando seu sucesso, o grupo deixou oferendas com bandeirinhas de oração, katas e grampos de fenda no que parecia ser o ponto mais alto da montanha, em seguida desceu em meio à nevasca crescente.

Na verdade quando os três deram meia-volta, ainda estavam a uma altitude de 8700 metros e a cerca de duas horas abaixo do cume princi­pal que, àquela hora, ainda era visível acima das nuvens mais altas. O fato de terem inadvertidamente parado a uns 150 metros antes de seu alvo explica por que eles não viram Hansen, Hall nem Lopsang no topo e vice-versa.

Mais tarde, pouco antes de escurecer, alpinistas que se encontra­vam mais abaixo, na crista nordeste, relataram ter visto duas luzes de lanterna mais ou menos a 8600 metros de altitude, logo acima de um notório e problemático paredão de rocha, conhecido como segundo escalão, porém nenhum dos três alpinistas de Ladakh retornou às bar­racas naquela noite, nem houve mais qualquer contato por rádio.

À 1h45 da madrugada do dia 11 de maio - mais ou menos na mes­ma hora em que Anatoli Boukreev fazia uma busca desesperada no colo sul, à procura de Sandy Pittman, Charlotte Fox e Tim Madsen —, dois alpinistas japoneses, acompanhados por três sherpas, partiram para o cume, pela rota da crista nordeste, da mesma altitude em que os três indianos haviam partido, apesar das fortes rajadas de vento que varriam o pico. Às 6h00, enquanto contornavam um empinado promontório de rocha chamado de primeiro escalão, Eisuke Shigekawa, 21 anos, e Hiroshi Hanada, 36, tiveram um choque ao ver um dos alpinistas de Ladakh, talvez Paljor, deitado na neve, seriamente congelado mas ain­da vivo, depois de uma noite inteira sem abrigo nem oxigênio, murmu­rando coisas ininteligíveis. Como não queriam colocar em perigo sua escalada, parando para auxiliá-lo, os japoneses continuaram escalando

rumo ao cume.

Às 7h15 chegaram à base do segundo escalão, uma penha vertical de xisto esfarelado que, em geral, é escalada por uma escada de alumí­nio que fora presa ao paredão por uma equipe chinesa em 1975. Para espanto dos alpinistas japoneses, entretanto, a escada estava caindo aos pedaços e parcialmente solta da rocha, de modo que seriam necessários noventa minutos de escalada extenuante para superar o rochedo de seis metros.

Pouco além do topo do segundo escalão os japoneses toparam com Smanla e Morup. Segundo um artigo escrito para o Financial Times pelo jornalista britânico Richard Cowper, que entrevistou Hana­da e Shigekawa a 6400 metros de altitude, logo após a escalada, um dos indianos "parecia estar perto da morte, o outro agachado na neve. Ne­nhuma palavra foi dita. Nem água, nem comida nem oxigênio trocaram de mãos. Os japoneses continuaram a subir e, 48 metros adiante, para­ram para descansar e trocaram os cilindros de oxigênio".

Hanada disse a Cowper: "Nós não os conhecíamos. Não, não demos água a eles. Não falamos com eles. Haviam sido gravemente atingidos pelo mal da montanha. Pareciam perigosos".

Shigekawa explicou: "Estávamos cansados demais para ajudar. Acima de 8 mil metros não é para se ter pruridos morais".

Virando as costas a Smanla e Morup, a equipe japonesa reiniciou a escalada, passou pelas

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