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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 107 / 128

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bandeirinhas de oração e pelos grampos de fenda deixados pelos indianos a 8702 metros e - numa espantosa mos­tra de tenacidade - chegaram ao cume às 11h45, em meio a um furio­so vendaval. Rob Hall estava, nesse momento, no cume sul, lutando por sua vida, uma meia hora de escalada abaixo dos japoneses, na crista sudeste.

Na volta a seu acampamento avançado, pela crista nordeste, os japoneses cruzaram de novo com Smanla e Morup, acima do segundo escalão. A essa altura Morup parecia morto; Smanla, embora ainda estivesse vivo, estava todo enrolado numa corda fixa. Pasang Kami, um dos sherpas da equipe japonesa, desenroscou Smanla da corda, depois continuou a descer a crista. Quando passaram pelo primeiro escalão - onde, a caminho do cume, haviam cruzado com Paljor, todo encolhido e delirando na neve - o grupo dos japoneses não viu mais nenhum sinal do terceiro indiano.

Sete dias mais tarde, a expedição da polícia da fronteira indo-tibe­tana fez uma outra tentativa de chegar ao topo. Partindo do acampa­mento avançado à 1h15 da manhã do dia 17 de maio, dois indianos e três sherpas logo encontraram os corpos congelados de seus companheiros de equipe. Relataram que um deles, já nas últimas, arrancara quase todas as roupas antes de sucumbir. Smanla, Morup e Paljor foram dei­xados na montanha no local em que caíram e os cinco alpinistas conti­nuaram rumo ao topo do Everest, onde chegaram às 7h40.

19

Colo sul

7h30

11 de maio de 1996

7900 m

Turning and turning in the widening gyre Thefalcon cannot hear defalconer; Thingsfall apart; the center cannot hold; Mere anarchy is loosed upon the world, The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere The ceremony of innocence is drowned. (40)

William Butler Yeats

"The Second Corning"

Quando voltei cambaleando ao acampamento 4, por volta das 7h30 da manhã de sábado, 11 de maio, a realidade do que acontecera -do que ainda estava acontecendo — começou a calar fundo, com uma força paralisante. Eu estava física e emocionalmente em farrapos, depois de ter passado uma hora apenas procurando por Andy Harris no colo sul; a procura me deixara convencido de que ele estava morto. As chamadas por rádio que meu colega de equipe Stuart Hutchison vinha monitorando, feitas por Rob Hall do cume sul, deixavam bem claro que nosso líder estava em situação desesperadora e que Doug Hansen morrera. Integrantes da equipe de Scott Fischer, que haviam passado boa parte da noite perdidos no colo sul informaram que Yasuko Namba e Beck Weathers estavam mortos. E Scott Fischer e Makalu Gau, presu­mia-se, também estavam mortos, ou muito próximos da morte, a 365 metros das barracas.

Confrontada com esse resultado, minha mente evadiu-se e entrou num estranho estado, quase robotizado, de distanciamento. Do ponto de vista emocional sentia-me anestesiado e, no entanto, hipervigilante, como se tivesse fugido para dentro de um abrigo nas profundezas do crânio e espiasse as ruínas à minha volta por uma fenda estreita numa placa blindada. Olhava entorpecido para o céu, que parecia ter adquiri­do um tom de azul sobrenatural, pálido, alvejado, onde restavam ape­nas meros resquícios de cor. Eu via o recorte do horizonte delineado por uma luminosidade de corona, que vibrava e pulsava. Cheguei a me per­guntar se por acaso não estaria começando a resvalar para a terra de pesadelos dos loucos.

Após uma noite sem oxigênio suplementar a 7925 metros, estava ainda mais fraco e mais exausto do que estivera na noite anterior, antes de descer do cume. A menos que comprássemos, de algum modo, um pouco mais de oxigênio ou descêssemos para um acampamento infe­rior, nosso estado, de meus colegas e meu, continuaria a se deteriorar bem depressa.

O cronograma de rápida aclimatação seguido por Hall e pela maioria dos alpinistas modernos no Everest é eficientíssimo: permite-nos embarcar rumo ao cume depois de passar um período relativamente cur­to de quatro semanas acima dos 5180 metros — incluindo-se aí um úni­co pernoite de aclimatação a 7315 metros. (41) No entanto tal estratégia supõe que, acima dos 7315 metros, todos

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