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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 108 / 128

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tenham um suprimento contí­nuo de oxigênio. Caso contrário, todas as apostas ficam canceladas.

Procurando os colegas restantes do grupo, encontrei Frank Fis­chbeck e Lou Kasischke deitados numa barraca vizinha. Lou delirava e estava com niflabepsia, completamente sem visão e incapaz de fazer qualquer coisa sozinho, resmungando palavras sem coerência. Frank parecia estar em estado de choque, mas tentava cuidar o melhor possí­vel de Lou. John Taske estava numa outra barraca com Mike Groom; ambos pareciam estar dormindo ou inconscientes. Por mais fraco e abalado que estivesse me sentindo, era óbvio que todos os outros, exce­to Stuart Hutchison, estavam em estado pior ainda.

Enquanto ia de barraca em barraca, tentava localizar algum oxigê­nio, mas todos os cilindros que achei estavam vazios. A hipoxia, aliada à minha profunda fadiga, exacerbavam a sensação de caos e desespero. Devido ao incessante chacoalhar das barracas de náilon, fustigadas pelo vento, era impossível qualquer comunicação de uma barraca para outra. As pilhas do único rádio que nos restara estavam quase esgota­das. Uma atmosfera de entropia terminal invadiu o acampamento, agravada pelo fato de que nossa equipe — que durante as seis semanas anteriores fora incentivada a depender por completo de nossos guias — estava agora total e absolutamente sem liderança. Estávamos sem Rob, sem Andy e, embora Groom estivesse presente, os tormentos da noite anterior tinham tido um efeito desvastador sobre ele. Seriamente afeta­do pelo congelamento, ainda meio abobalhado, não conseguia nem falar, por enquanto.

Com todos os guias fora de combate, Hutchison assumiu o vazio da liderança. Rapaz extremamente tenso, que se levava muito a sério, fruto da nata da sociedade anglófona de Montreal, era um brilhante médico pesquisador que saía em grandes expedições de alpinismo a cada dois ou três anos mas, fora isso, não tinha muito tempo para esca­lar. À medida que a crise foi aumentando no acampamento 4, ele fez o possível para mostrar-se à altura da situação.

Enquanto eu tentava retomar minha infrutífera busca de Andy Harris, Hutchison organizou um grupo de quatro sherpas para localizar os corpos de Weathers e Namba, que haviam sido deixados na outra extremidade do colo sul quando Anatoli Boukreev levou Charlotte Fox, Sandy Pittman e Tim Madsen. A equipe sherpa de busca, encabeçada por Lhakpa Chhiri, partiu na frente de Hutchison, que estava tão exaus­to e atônito que esquecera de pôr as botas de alpinismo e tentara sair do acampamento calçado apenas com o forro delas, de sola lisa. Somente quando Lhakpa apontou é que Hutchison se deu conta e voltou para pôr as botas. Seguindo as instruções de Boukreev, os sherpas logo encon­traram os dois corpos numa encosta de gelo cinzento, pontilhada de rochas, perto da borda do flanco do Kangshung. Extremamente supers­ticiosos em relação aos mortos, como tantos outros sherpas, pararam a uns vinte metros e esperaram por Hutchison.

"Os dois corpos estavam parcialmente enterrados", Hutchison conta. "As mochilas estavam a uns trinta metros de distância, mais aci­ma deles. O rosto e torso de ambos estavam cobertos de neve; apenas mãos e pés continuavam à mostra. O vento uivava pelo colo sul." O pri­meiro corpo do qual se aproximou foi o de Namba, mas Hutchison não sabia dizer de quem era até ajoelhar-se no vendaval e quebrar uma cara­paça de 7,5 centímetros de gelo do rosto dela. Atônito, percebeu que ela ainda respirava. As duas luvas tinham desaparecido e as mãos nuas davam a impressão de estarem completamente congeladas. As pupilas estavam dilatadas. A pele do rosto estava da cor de porcelana branca. "Foi terrível", disse Hutchison. "Eu fiquei arrasado. Ela estava à beira da morte. Eu não sabia o que fazer."

Stuart então virou-se para Beck, que estava a uns seis metros de distância. A cabeça de Beck também estava coberta por uma armadura rígida de gelo. Bolas de gelo do tamanho de uma uva enroscavam-se em seu cabelo e nas pestanas. Após limpar os detritos congelados do rosto de Beck, Hutchison descobriu que o texano também ainda estava vivo: "Beck estava murmurando qualquer coisa, acho eu, mas não dava para saber o que estava tentando dizer. Sua luva direita tinha desaparecido e a mão estava terrivelmente necrosada. Tentei fazê-lo sentar-se mas não conseguia. Estava tão perto da morte quanto alguém pode estar, mas ainda respirava".

Abalado ao extremo, Hutchison foi até os sherpas e pediu o con­selho de Lhakpa, um veterano do Everest respeitado tanto por sherpas como por sahibs, pelo seu conhecimento da montanha. Lhakpa pediu que Hutchison deixasse Beck e Yasuko onde estavam. Mesmo que sobrevivessem tempo suficiente para serem arrastados de volta ao acampamento 4, com certeza morreriam antes de poderem

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