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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 109 / 128

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ser carrega­dos até o acampamento-base; além do mais, tentar um resgate poria em perigo, sem necessidade, a vida dos outros alpinistas no colo sul, a maioria dos quais teria problemas suficientes para descer em seguran­ça, mesmo sozinhos.

Hutchison decidiu que Lhakpa estava certo — havia apenas uma escolha a fazer, por mais difícil que fosse: deixar que a natureza seguis­se seu curso inevitável com Beck e Yasuko, e investir os recursos do grupo para aqueles que ainda podiam ser ajudados. Foi um clássico ato de triagem. Quando Hutchison retornou ao acampamento, estava à beira das lágrimas e parecia um fantasma. A pedido seu, acordamos Taske e Groom, depois nos amontoamos numa das barracas para decidir o que fazer com Beck e Yasuko. A conversa que se seguiu foi angustiada e entrecortada. Evitávamos olhar uns para os outros. Depois de cinco minutos, entretanto, nós quatro concordamos: a decisão de Hutchison de deixar Beck e Yasuko onde estavam era a mais apropriada.

Também discutimos a possibilidade de descer para o acampamen­to 2 naquela tarde, mas Taske insistiu que não devíamos sair do colo sul enquanto Hall estivesse preso no cume sul. "Eu não vou nem pensar na possibilidade de sair sem ele daqui." Era apenas um ponto retórico: Kasischke e Groom estavam em tal estado que ir a algum lugar estava totalmente fora de cogitação.

"Àquela altura eu estava bastante preocupado que estivéssemos começando a repetir o que aconteceu no K2 em 1986", diz Hutchison. No dia 4 de julho daquele ano, sete veteranos do Himalaia — inclusive o lendário bergsteiger austríaco Kurt Diemberger — partiram para o cume da segunda montanha mais alta do mundo. Seis dos sete chega­ram ao topo, mas durante a descida uma forte tempestade varreu as encostas superiores do K2, prendendo os alpinistas em seu campo avançado, a 8 mil metros de altitude. A nevasca continuou, sem amai­nar, durante cinco dias e eles foram ficando cada vez mais fracos. Quan­do a tempestade finalmente cessou, apenas Diemberger e uma outra pessoa conseguiram descer com vida.

No sábado de manhã, enquanto discutíamos o que fazer com Namba e Weathers e para onde descer, Neal Beidleman estava chaman­do os integrantes da equipe de Fischer nas barracas e ordenando que todos começassem a descida. "Todo mundo estava tão esgotado da noite anterior que foi realmente duro botar nosso grupo de pé e fora das barracas — eu quase tive que esmurrar alguns para conseguir fazê-los calçar as botas", ele diz. "Mas estava de fato decidido a fazer com que todo mundo descesse logo. Na minha opinião, ficar a 7900 metros mais tempo do que o absolutamente necessário é chamar desgraça. Eu sabia que havia equipes de resgate tentando chegar até Scott e Rob, de modo que me concentrei em tirar nossos clientes do colo sul e ir para um acampamento inferior."

Enquanto Boukreev permanecia no acampamento 4, para esperar por Fischer, Beidleman conduzia a descida vagarosa do grupo. Aos 7620 metros, parou para dar outra injeção de dexametasona em Sandy Pittman, em seguida todos pararam por um longo tempo no acampa­mento 3 para descansar e reidratar-se. "Quando vi aquele pessoal", diz David Breashears, que estava no acampamento 3 quando o grupo de Beidleman chegou, "fiquei atordoado. Parecia que eles tinham estado numa guerra durante uns cinco meses. Sandy começou a desmoronar — estava chorando: 'Foi terrível! Eu simplesmente desisti, deitei e esperei a morte!'. Todo mundo parecia estar em estado de choque profundo."

Pouco antes de anoitecer, as últimas pessoas do grupo de Beidleman estavam descendo o gelo íngreme da porção inferior do flanco do Lhotse quando, a uns 150 metros do fim das cordas fixas, o grupo encontrou alguns sherpas de uma expedição de limpeza do Nepal, que tinham ido até lá para ajudá-los. Ao reiniciarem a descida, pedras do tamanho de uma toranja começaram a rolar do alto da montanha e uma delas bateu em cheio na parte de trás da cabeça de um sherpa. "A pedra simplesmente o pegou em cheio", diz Beidleman, que observou o inci­dente um pouco acima.

"Foi pavoroso", Klev Schoening diz, recordando-se. "O barulho foi como se ele tivesse sido atingido por um taco de beisebol." A força do golpe tirou uma lasca do tamanho de um dólar de prata do crânio do sherpa, ele perdeu a consciência e teve uma parada cardiopulmonar.

Quando caiu e começou a escorregar pela rampa, Schoening pulou na frente dele e conseguiu pará-lo. Porém, um momento depois, enquan­to Schoening segurava o sherpa nos braços, uma segunda pedra despen­cou e bateu em cheio no sherpa; de novo, o homem sofreu o impacto bem na parte posterior do crânio.

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