X hits on this document

Word document

o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 111 / 128

539 views

0 shares

1 downloads

0 comments

111 / 128

fazer alguma coisa, e rápido."

Embora estivesse cego do olho direito e só conseguisse focalizar o esquerdo num raio de um metro ou pouco mais, ele começou a andar contra o vento, deduzindo, corretamente, que o acampamento ficava naquela direção. Caso tivesse se enganado, não demoraria a despencar pelo flanco do Kangshung, cuja beirada estava a apenas nove metros dali, na direção oposta. Cerca de noventa minutos depois, ele encontrou algumas "rochas azuladas, curiosamente lisas", que na verdade eram as barracas do acampamento 4.

Hutchison e eu estávamos em nossa barraca, monitorando uma chamada de rádio de Rob Hall, do cume sul, quando Burleson apare­ceu correndo. "Doutor! Precisamos do senhor agora!", gritou ele para Stuart, ainda do lado de fora da porta. "Pegue suas coisas. Beck acaba de voltar e está mal." Sem fala com a milagrosa ressurreição de Beck, Hutchison, exausto, saiu da barraca para atender ao chamado.

Ele, Athans e Burleson puseram Beck numa barraca desocupada, embrulharam-no em dois sacos de dormir com várias bolsas de água quente e colocaram uma máscara de oxigênio em seu rosto. "Naquele momento", Hutchison confessa, "nenhum de nós achava que Beck sobreviveria àquela noite. Eu mal podia pegar o pulso da carótida, que é a última pulsação que você perde antes de morrer. Ele estava num estado crítico. E mesmo que sobrevivesse até a manhã seguinte, não fazia idéia de como poderíamos levá-lo mais para baixo."

A essa altura os três sherpas que haviam partido para resgatar Scott Fischer e Makalu Gau estavam de volta ao acampamento, com Gau; deixaram Fischer numa plataforma a 8290 metros, depois de concluírem que não havia mais nada a fazer por ele. Porém, tendo acabado de ver Beck entrar no acampamento, depois de ser abandonado como morto, Anatoli Boukreev não se dispôs a dar Fischer como morto. Às 17h00, à medida que a tempestade se intensificava, o russo começou sozinho a subida, na tentativa de salvá-lo.

"Encontrei Scott às sete da noite, talvez sete e meia, oito", diz Boukreev. "Já estava escuro, e a tempestade, muito forte. Sua máscara de oxigênio estava no rosto, mas a garrafa vazia. Não estava usando luvas; as mãos completamente nuas. O traje de penugem de ganso esta­va aberto, ele tinha tirado o ombro e um dos braços para fora. Não havia nada que eu pudesse fazer. Scott estava morto." Com o coração pesado, Boukreev pôs a mochila de Fischer sobre seu rosto, como uma morta­lha, e deixou-o ali mesmo na plataforma. Depois recolheu a máquina fotográfica, o piolet e seu canivete preferido - que mais tarde Beidle­man daria ao filho de Scott, de nove anos de idade, em Seattle - e desceu em meio à tempestade.

O vendaval de sábado à noite foi ainda pior que o da noite anterior. Na altura em que Boukreev conseguiu voltar ao acampamento 4, a visibilidade era de apenas alguns metros e ele teve dificuldade em encon­trar as barracas.

Respirando oxigênio engarrafado (graças à equipe da imax) pela primeira vez em trinta horas, caí num sono tortuoso, irrequieto, apesar do barulhão que a barraca fazia com o vento. Pouco depois da meia-noite, eu estava no meio de um pesadelo com Andy - ele estava caindo do flanco do Lhotse, amarrado a uma corda, querendo saber por que eu não tinha segurado a outra ponta -, quando Hutchison me acordou. "Jon", gritou, por cima dos rugidos da tempestade. "Estou preocupado com a barraca. Você acha que ela agüenta?"

Emergindo ainda zonzo das profundezas de meu sono angustiado, como um afogado subindo à superfície do oceano, levei bem um minu­to para perceber por que Stuart estava tão preocupado: o vento achata­ra metade de nosso abrigo, que sacudia de modo violento a cada rajada sucessiva de vento. Várias estacas estavam já completamente tortas e minha lanterna frontal revelou que duas costuras principais estavam em perigo iminente de serem rasgadas. Nuvens de partículas finas de neve enchiam o ar dentro da barraca, cobrindo tudo com uma camada de branco. O vento estava soprando mais forte do que tudo que eu já vira antes, até mesmo na calota de gelo da Patagônia, um lugar famoso por ter os ventos mais fortes do planeta. Se a barraca se desintegrasse antes da manhã, estaríamos em sérios apuros.

Stuart e eu juntamos nossas botas e roupas, em seguida nos posi­cionamos na direção de onde

Document info
Document views539
Page views667
Page last viewedFri Dec 09 16:54:24 UTC 2016
Pages128
Paragraphs1519
Words87495

Comments