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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 112 / 128

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soprava o vento. Com as costas e os ombros grudados com firmeza nas estacas danificadas, passamos as três horas seguintes debruçados no furacão, apesar de nossa imensa fadiga, segurando a sofrida cúpula de náilon como se disso dependes­sem nossas vidas. Pensei em Rob, no cume sul, a 8747 metros, sem oxi­gênio, exposto à selvageria total dessa tempestade, sem nenhum lugar para se abrigar - mas era um pensamento tão perturbador que tentei esquecer o assunto.

Pouco antes do amanhecer, no domingo 12 de maio, o oxigênio de Stuart acabou. "Sem ele, me sentia cada vez mais frio, a hipotermia aumentando", diz. "Comecei a perder a sensação das mãos e dos pés. Fiquei preocupado, achei que estava perdendo o controle, que eu não ia conseguir descer do colo. O mais preocupante era que, se não descesse aquela manhã, talvez não descesse nunca mais." Dando minha garrafa de oxigênio a Stuart, procurei até encontrar uma outra com algum gás sobrando e depois começamos os dois a juntar as coisas para a descida.

Quando me aventurei a sair, vi que pelo menos uma das barracas desocupadas tinha sido varrida do colo. Depois reparei em Ang Dorje, parado sozinho, ao vento inclemente; soluçava de modo inconsolável pela perda de Rob. Depois da expedição, quando eu contei a Marion Boyd sobre sua dor, ela me explicou que "Ang Dorje vê seu papel na ter­ra como o de alguém que deve manter as pessoas a salvo - nós dois conversamos bastante sobre isso. É importantíssimo para ele, em ter­mos de sua religião, a fim de preparar-se para a próxima rodada da vida. (42) Ainda que Rob fosse o líder da expedição, Ang Dorje vê como responsabilidade sua garantir a segurança de Rob, Doug Hansen e dos outros. De modo que, quando morreram, pôs a culpa em si mesmo".

Preocupado que Ang Dorje estivesse perturbado a ponto de se recusar a descer, Hutchison lhe implorou que descesse do colo sul imediatamente. Então, às 8h30 - acreditando que àquela altura Rob, Andy, Doug, Scott, Yasuko e Beck estavam todos certamente mortos -, Mike Groom, com lesões sérias devido ao congelamento, obrigou-se a sair da barraca, reuniu Hutchison, Taske, Fischbeck e Kasischke e começou a liderá-los montanha abaixo.

Na ausência de quaisquer outros guias, apresentei-me como voluntário para preencher a lacuna e ir atrás de todos. Enquanto nosso triste grupo ia, em fila indiana, descendo devagar do acampamento 4 rumo ao esporão de Genebra, reuni toda a coragem que tinha para uma última visita a Beck que, presumia eu, tinha morrido durante a noite. Localizei sua barraca, que fora achatada pelo furacão, e vi que ambas as portas estavam abertas. Quando espiei lá dentro, contudo, fiquei cho­cado ao descobrir que Beck ainda estava vivo.

Estava deitado de costas, no chão da barraca arruinada, tremendo convulsivamente. Seu rosto estava inchado demais; manchas negras de congelamento cobriam seu nariz e bochechas. A tempestade arrastara os dois sacos de dormir de seu corpo, deixando-o exposto aos ventos abaixo de zero e, com as mãos congeladas, não pudera puxar os sacos de volta nem fechar a barraca com o zíper. "Jesus Cristo!", ele berrou quando me viu, as feições torcidas num rito de agonia e desespero. "O que é que um cara precisa fazer para obter um pouco de ajuda por aqui?" Gritara por socorro durante duas ou três horas, mas a tempestade aba­fara seus gritos.

Beck acordara no meio da noite e descobrira que "a tempestade tinha arruinado a barraca e aberto as portas. O vento estava espremen­do a parede da barraca de tal forma sobre meu rosto que eu não conse­guia respirar. Ela afastava um segundo, depois vinha direto para cima do meu rosto e peito, tirando-me o fôlego. Além de tudo, meu braço direito estava começando a inchar e eu com esse relógio estúpido, de modo que à medida que meu braço ia aumentando, o relógio ia ficando mais e mais apertado, até quase cortar o suprimento de sangue para minha mão. Mas com as duas mãos nesse estado, não tinha como tirar a maldita coisa. Gritei por socorro, mas não apareceu ninguém. Foi uma longa noite, pode crer. Como fiquei feliz de ver sua cara quando você botou a cabeça na porta!".

Ao encontrar Beck na barraca, daquele jeito, fiquei tão chocado de ver seu estado pavoroso — e com a maneira imperdoável como nós o tínhamos deixado na mão mais uma vez - que quase chorei. "Tudo vai terminar bem", menti, sufocando meus soluços enquanto puxava os sacos de dormir sobre ele, fechava de novo as portas com o zíper e ten­tava reerguer o abrigo danificado. "Não se preocupe, amigo. Está tudo sob controle agora."

Assim que deixei Beck tão confortável quanto possível, entrei em contato por rádio com a dra.

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