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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 113 / 128

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Mackenzie, no acampamento-base. "Ca­roline!", implorei com voz histérica. "O que eu faço com Beck? Ele ainda está vivo, mas não creio que consiga sobreviver por muito mais tempo. Está realmente muito mal!"

"Tente manter a calma, Jon", ela respondeu. "Você precisa descer com Mike e o resto do grupo. Onde estão Pete e Todd? Peça-lhes para cuidarem de Beck, depois comece a descer." Num frenesi, acordei Athans e Burleson, que saíram imediatamente rumo à barraca de Beck, com um cantil de chá quente. Enquanto eu me apressava em deixar o acampamento, para reunir-me a meus companheiros, Athans estava se preparando para injetar quatro miligramas de dexametasona na coxa do texano moribundo. Esses eram gestos dignos de admiração, mas era difícil imaginar que pudessem lhe fazer algum bem.

20

Esporão de Genebra

9h45

12 de maio de 1996

7900 m

A única grande vantagem que a inexperiência confere ao futuro alpinista é a de não estar atrelado a tradições ou precedentes. Tudo lhe parece simples e ele escolhe sempre soluções diretas para os problemas que enfrenta. Muitas vezes, é claro, isso ani­quila o sucesso que está buscando, às vezes com conseqüências trágicas, mas ele próprio não sabe disso quando parte para sua aventura. Maurice Wilson, Earl Denman, Klaus Becker-Larsen nenhum deles sabia grande coisa sobre alpinismo, caso con­trário jamais teriam partido em sua busca infrutífera, no entan­to, desvencilhados das técnicas, foi a determinação que os levou tão longe.

Walt Unsworth

Everest

Quinze minutos após deixar o colo sul, na manhã de domingo, 12 de maio, alcancei os companheiros que estavam descendo o esporão de Genebra. Era uma visão patética: estávamos tão debilitados que o grupo levou um tempo incrivelmente longo apenas para descer uns poucos metros até a encosta de neve logo abaixo. O mais dilacerante, contudo, era ver ao que fôramos reduzidos: três dias antes, quando subimos este trecho, éramos onze; agora só havia seis de nós.

Stuart Hutchison, na rabeira da turma, ainda estava no topo do esporão quando o alcancei, preparando-se para fazer um rappel pelas cordas fixas. Reparei que não estava usando os óculos de proteção. Ainda que estivesse um dia nublado, a fortíssima radiação ultravioleta nes­sa altitude o deixaria cego bem depressa. "Stuart!", gritei, por cima do vento, apontando para meus olhos. "Seus óculos!"

"Ah, sim", ele respondeu, com voz exausta. "Obrigado por me lembrar. Escuta, já que você está aqui, importa-se de checar minha cadeirinha? Estou tão cansado que não consigo mais pensar com clare­za. Eu apreciaria se você ficasse de olho em mim." Examinando sua cadeirinha, logo vi que a fivela não estava apertada como deveria. Se tivesse se atrelado à corda, o fecho teria se aberto sob o peso do corpo e ele teria despencado pelo flanco do Lhotse. Quando apontei para o fecho, ele disse: "É, foi o que pensei, mas minhas mãos estão frias demais para fechar direito". Tirando minhas luvas no vento cortante, afivelei rapidamente sua cadeirinha, bem firme em torno da cintura, e ele começou a descer o esporão, atrás dos outros.

Quando atrelou sua corda à corda fixa, jogou de lado o piolet e dei­xou-o ali, enquanto embarcava no primeiro rappel. "Stuart!", gritei. "Seu piolet."

"Estou cansado demais para carregá-lo", ele gritou de volta. "Deixe aí." Eu também estava tão exausto que não discuti. Deixei o pio­let onde estava, atrelei a corda e segui Stuart pela parede empinada do esporão de Genebra.

Uma hora depois, chegamos no topo da Franja Amarela e então houve um congestionamento, à medida que cada alpinista ia descendo com cautela o penhasco vertical de calcário. Enquanto esperava, no fim da fila, vários dos sherpas de Scott Fischer nos alcançaram. Lopsang Jangbu, meio enlouquecido de dor e exaustão, estava entre eles. Colo­cando a mão em seu ombro, disse-lhe que sentia muito por Scott. Lop­sang esmurrou o peito e disse, aos soluços: "Eu traz azar, muito azar. Scott está morto; é culpa minha. Eu traz azar. É culpa minha. Eu traz muito azar".

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