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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 114 / 128

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Arrastei-me para dentro do acampamento 2 por volta das 13h30. Embora segundo qualquer padrão racional eu ainda estivesse a uma grande altitude - 6490 metros -, esse lugar era bem diferente do colo sul. O vento assassino sumira completamente. Em vez de tremer e preocupar-me com congelamento, agora estava suando profusamente debaixo do sol escaldante. Não parecia mais estar agarrado à sobrevi­vência por um cordão esfiapado.

Nosso refeitório, logo percebi, fora transformado num hospital improvisado de campanha, atendido por Henrik Jessen Hansen, médi­co dinamarquês da equipe de Mal Duff, e Ken Kamler, médico da expedição de Todd Burleson. Às 15h00, enquanto eu tomava uma xícara de chá, seis sherpas arrastaram Makalu Gau para dentro da barraca e os médicos entraram em ação.

Imediatamente o puseram deitado, tiraram toda a sua roupa e enfia­ram um tubo intravenoso em seu braço. Examinando suas mãos e seus pés congelados, que tinham um brilho fosco esbranquiçado, como o de uma pia suja de banheiro, Kamler comentou soturno: "Esse é o pior caso de congelamento que já vi". Quando perguntou a Gau se poderia tirar algumas fotos de seus membros, para registro médico, o taiwanês consentiu com um amplo sorriso: feito um soldado mostrando velhas feridas de batalha, ele parecia quase orgulhoso de seus terríveis feri­mentos.

Noventa minutos mais tarde, os médicos ainda trabalhando em Makalu, a voz de David Breashears ressoou pelo rádio: "Estamos des­cendo com Beck. Estaremos com ele aí por volta do anoitecer".

Passou um longo momento até eu perceber que Breashears não estava falando em trazer um corpo de lá de cima; ele e seus companhei­ros estavam trazendo Beck com vida. Eu não podia acreditar. Quando o deixei no colo sul, sete horas antes, tinha certeza de que não iria sobre­viver à manhã.

Dado como morto de novo, Beck simplesmente se recusou a sucumbir. Mais tarde fiquei sabendo por Pete Athans que, pouco depois da injeção de dexametasona, o texano teve uma melhora espantosa. "Por volta das dez e meia nós o vestimos, pusemos a cadeirinha e des­cobrimos que na verdade ele era capaz de se levantar e de andar. Ficamos todos bastante surpresos."

Começaram a descer o colo sul, com Athans logo à frente de Beck, dizendo-lhe onde pôr o pé. Com um braço no ombro de Athans e Burleson bem atrás, agarrado a sua cadeirinha, eles foram se arrastan­do com cuidado, montanha abaixo. "Houve momentos em que tivemos que ajudá-lo bastante", diz Athans, "mas de fato ele se movimentou surpreendentemente bem."

Aos 7620 metros, chegando ao topo dos penhascos de calcário da Franja Amarela, foram recebidos por Ed Viesturs e Robert Schauer, que baixaram Beck com a maior eficiência pela rocha vertical. No acampa­mento 3 foram assistidos por Breashears, Jim Williams, Veikka Gustafsson e Araceli Segara; os oito alpinistas, saudáveis e descansados, des­ceram Beck pelo flanco do Lhotse num tempo consideravelmente menor do que meus colegas e eu tínhamos conseguido fazer aquela manhã.

Quando fiquei sabendo que Beck estava descendo, fui até minha barraca, calcei minhas botas de alpinismo com uma certa dificuldade e comecei a subir, para me encontrar com o grupo de resgate, esperando cruzar com eles na porção inferior do flanco do Lhotse. Porém vinte minutos acima do acampamento 2 fiquei surpreso ao topar com toda a equipe. Embora estivesse sendo repesado com uma corda, Beck estava se movimentando sozinho. Breashears e os outros desceram com ele num ritmo tão rápido que eu próprio, em meu estado debilitado, mal pude acompanhá-los.

Beck foi colocado ao lado de Gau, na barraca do hospital, e os médicos começaram a tirar-lhe as roupas. "Meu Deus!", exclamou o dr. Kamler ao ver a mão direita de Beck. "O congelamento é ainda pior que o de Makalu." Três horas depois, quando me enfiei no saco de dormir, os médicos ainda estavam descongelando os membros de Beck em água morna, trabalhando à luz das lanternas frontais.

Na manhã seguinte - segunda-feira, 13 de maio - saí da barra­ca com as primeiras luzes do dia e andei uns quatro quilômetros através da vala profunda do Circo Oeste, até a beirada da cascata de gelo. Ali, agindo sob as instruções transmitidas por Guy Cotter, do acampamen­to-base, procurei uma área plana que pudesse servir de aterrissagem para um helicóptero.

Nos dias anteriores, Cotter vinha tentando com insistência orga­nizar um resgate por helicóptero da

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