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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 115 / 128

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parte inferior do Circo, para que Beck não tivesse que descer pelas cordas e escadas traiçoeiras da cas­cata de gelo, o que teria sido difícil e muito arriscado com suas mãos no estado em que estavam. Em 1973, alguns helicópteros pousaram no Circo Oeste, quando uma expedição italiana usou dois deles para trans­portar a carga do acampamento-base. Ainda assim era perigoso demais voar até lá, no limite do alcance da aeronave, e uma das máquinas ita­lianas se chocara de encontro ao glaciar. Nos 23 anos seguintes, nunca mais ninguém tentou aterrissar acima da cascata de gelo.

Cotter, porém, era persistente e graças a seus esforços a embaixa­da norte-americana conseguiu persuadir o exército nepalês a tentar um resgate no Circo. Por volta das 8h00 da segunda-feira de manhã, enquanto eu procurava em vão um local aceitável de pouso entre a mixórdia de seracs na borda da cascata de gelo, ouvi a voz de Cotter dizendo, pelo rádio: "O helicóptero está a caminho, Jon. Deve chegar aí a qualquer minuto. É melhor você achar um lugar para ele bem rápi­do". Na esperança de encontrar um terreno plano mais alto, no glaciar, dei de cara com Beck sendo repesado Circo abaixo por Athans, Burleson, Gustafsson, Breashears, Viesturs e demais integrantes da equipe da imax.

Breashears, que trabalhara com muitos helicópteros durante sua longa e eminente carreira em filmes, encontrou na hora um local de pouso, margeado por duas enormes gretas a 6053 metros. Amarrei um kata de seda numa vara de bambu, para servir de indicador de vento, enquanto Breashears - usando uma garrafa de Kool-Aid vermelho, como tinta - marcou um X gigantesco na neve, no centro da zona de pouso. Alguns minutos depois Makalu Gau apareceu, tendo sido arras­tado glaciar abaixo num pedaço de plástico por meia dúzia de sherpas. Após um instante, ouvimos os rotores de um helicóptero girando furio­samente no ar rarefeito.

Pilotado pelo tenente-coronel Madan Khatri Chhetri, do Exército nepalês, o helicóptero Squirrel B-2, sarapintado de verde-oliva - esvaziado de todo combustível e equipamento desnecessário -, fez duas tentativas, mas em cada uma delas abortou no último momento. Na terceira tentativa, entretanto, Madan pousou o Squirrel precaria­mente no glaciar, com a cauda pendurada sobre uma greta sem fim. Mantendo os rotores girando em potência máxima, sem nunca tirar os olhos do painel de controle, Madan levantou um único dedo, indicando que só poderia levar um passageiro; nessa altitude, qualquer peso adicional poderia fazer com que o helicóptero caísse na hora de decolar.

Como os pés congelados de Gau tivessem sido descongelados no acampamento 2, ele não podia mais andar, nem mesmo ficar de pé, de modo que Breashears, Athans e eu concordamos que o alpinista taiwa­nês era quem deveria ir. "Desculpe", eu gritei para Beck, por cima dos gritos das turbinas do helicóptero. "Talvez ele consiga fazer um segun­do vôo." Beck balançou a cabeça como um filósofo.

Levantamos Gau até a traseira do helicóptero e a máquina se mexeu, hesitante. Assim que as bequilhas de Madan soltaram-se do glaciar, ele embicou o helicóptero para a frente, caiu feito uma pedra pela cascata de gelo e desapareceu nas sombras. Um denso silêncio

encheu o Circo.

Trinta minutos mais tarde, nós continuávamos na zona de pouso discutindo sobre como descer Beck, quando um ruído distante de heli­cóptero reverberou no vale abaixo. Aos poucos o barulho foi crescendo, crescendo, e enfim apareceu o pequeno helicóptero verde. Madan voou um pouco mais acima do Circo, antes de trazê-lo de volta, de modo que o nariz da aeronave ficasse apontado para baixo. Então, sem hesitar, pousou o Squirrel mais uma vez na marca vermelha e Breas­hears e Athans embarcaram Beck. Segundos depois o helicóptero esta­va no ar, passando pelo ombro oeste do Everest feito uma estranha libé­lula de metal. Uma hora depois, Beck e Makalu Gau estavam recebendo tratamento num hospital de Katmandu.

Depois que a equipe de resgate se dispersou, fiquei sentado na neve um tempão, sozinho, olhando minhas botas, tentando avaliar o que tinha acontecido nas 72 horas anteriores. Como é que as coisas podiam ter fugido ao controle dessa maneira? Como é que Andy, Rob, Scott, Doug e Yasuko podiam estar realmente mortos? Porém, por mais que tentasse, não havia respostas. A magnitude dessa calamidade esta­va tão além de qualquer coisa que eu pudesse imaginar que meu cére­bro simplesmente se fechou e escureceu. Abandonando toda e qualquer esperança de compreender o que se passara, pus minha mochila nas costas e comecei a descer o encantamento gelado da cascata de gelo, nervoso como um gato, nessa última viagem pelo labirinto de seracs.

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