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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 116 / 128

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ACAMPAMENTO-BASE DO EVEREST

13 DE MAIO DE 1996

5400 M

É inevitável que me peçam um julgamento maduro sobre a expe­dição, do tipo que seria impossível fazer quando estávamos todos tão próximos dela. [...] Por um lado, Amundsen indo direto para lá, chegando lá primeiro, regressando sem perder um único homem e sem ter exigido, de si ou de seus homens, qualquer esfor­ço extraordinário, além do necessário para o trabalho de explo­ração polar. De outro lado nossa expedição corria riscos tremen­dos, executando prodígios de resistência sobre-humana, atingindo renome imortal; era celebrada com sermões em augus­tas catedrais, com estátuas públicas e, no entanto, alcançava o pólo apenas para descobrir que nossa viagem fora supérflua e para deixar nossos melhores homens mortos no gelo. Ignorar tamanho contraste seria ridículo; escrever um livro sem lhe dar o peso devido, uma perda de tempo.

Apsley Cherry-Garrard

The worstjourney in the world,

um relato sobre a fatídica expedição

de 1912 de Robert Falcon Scott ao Pólo Sul

Chegando ao fim da cascata de gelo do Khumbu, na segunda-feira de manhã, 13 de maio, desci a encosta final e encontrei Ang Tshering, Guy Cotter e Caroline Mackenzie à minha espera, na beirada do glaciar. Guy me deu uma cerveja, Caroline um abraço e, quando percebi, esta­va sentado no gelo, com a cabeça nas mãos e lágrimas escorrendo pelo rosto, chorando como não chorava desde bem pequeno. A salvo agora, aliviada a tensão esmagadora dos dias anteriores, chorei por meus companheiros perdidos, chorei por estar vivo, chorei porque me sentia péssimo por ter sobrevivido enquanto outros morreram.

Na terça à tarde, Neal Beidleman presidiu a um serviço em memó­ria dos desaparecidos, no acampamento da Mountain Madness. O pai de Lopsang Jangbu, Ngawang Sya Kya - ordenado lama - queimou incenso de junípero e entoou as escrituras budistas sob um céu cinza metálico. Neal disse algumas palavras, Guy falou, Anatoli Boukreev lamentou a perda de Scott Fischer. Eu me levantei e gaguejei algumas recordações de Doug Hansen. Pete Schoening tentou levantar o ânimo de todos pedindo que olhássemos para a frente, e não para trás. Porém, quando o serviço terminou e nos dispersamos, cada um para sua barra­ca, havia um clima fúnebre pairando sobre o acampamento-base.

Na manhã seguinte bem cedo, chegou um helicóptero para trans­portar Charlotte Fox e Mike Groom, ambos com congelamento nos pés e precisando de imediata atenção médica. John Taske, que era médico, foi com eles, para tratar dos dois no caminho. Aí, pouco antes do meio-dia, enquanto Helen Wilton e Guy Cotter ficavam para trás para super­visionar o desmanche do acampamento da Adventure Consultants, Lou Kasischke, Stuart Hutchison, Frank Fishbeck, Caroline e eu saímos do acampamento-base para voltarmos para casa.

Na quinta-feira, 16 de maio, fomos de helicóptero de Pheriche até a aldeia de Syangboche, pouco acima de Namche Bazaar. Ao cruzar­mos a pista de terra, para esperar um segundo vôo até Katmandu, Stuart, Caroline e eu fomos abordados por três japoneses muito pálidos. O pri­meiro disse que seu nome era Muneo Nukita - era um experiente alpi­nista do Himalaia, que já atingira o topo do Everest duas vezes - e explicou-nos que estava agindo como guia e intérprete para os outros dois, a quem nos apresentou como sendo o marido de Yasuko Namba, Kenichi Namba, e o irmão dela. Durante os 45 minutos seguintes, eles fizeram muitas perguntas e poucas foram as que pude responder.

Àquela altura, a morte de Yasuko tornara-se manchete em todo o Japão. Na verdade, no dia 12 de maio - menos de 24 horas depois que ela morreu no colo sul -, um helicóptero pousara no meio do acampa­mento-base e dois jornalistas japoneses saltaram, usando máscaras de oxigênio. Aproximando-se da primeira pessoa que viram - um alpinista americano chamado Scott Darsney - pediram informações sobre Yasuko. Agora, quatro dias mais tarde, Nukita advertiu-nos de que um enxame igualmente predador de repórteres da imprensa e televisão estavam à nossa espera em Katmandu.

Já no final daquela tarde, subimos a bordo de um gigantesco heli­cóptero Mi-17 e decolamos em meio a uma brecha nas nuvens. Uma hora depois o helicóptero pousou no Aeroporto Internacional de Tribhuvan e, ao sairmos, fomos recebidos por uma floresta de microfones e câmeras de televisão. Como jornalista, achei edificante experimentar as coisas do outro lado da cerca. A multidão de

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