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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 117 / 128

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repórteres, em sua maioria japoneses, queria uma versão concisa da calamidade, repleta de vilões e heróis. Porém o caos e o sofrimento que eu testemunhara não eram facilmente reduzidos a curtos trechos sonoros. Depois de vinte minutos sendo assolado por perguntas na pista, fui salvo por David Schensted, o cônsul da embaixada norte-americana, que me deixou no Hotel Ganida.

Seguiram-se entrevistas mais difíceis - feitas por outros repórte­res e, depois, por uma enfiada de funcionários carrancudos do Mi­nistério do Turismo. Na sexta-feira à noite, vagando pelas vielas do Thamel, em Katmandu, busquei alívio para uma depressão cada vez mais profunda. Entreguei a um garoto magricela nepalês um punhado de rúpias e recebi um minúsculo pacote em troca, brasonado com um tigre rugindo. De volta ao hotel, desembrulhei o pacote e esfarelei seu conteúdo num papel de cigarro. Os brotos verde-claros estavam gru­dentos de resina, cheirando a fruta podre. Enrolei o baseado, fumei in­teirinho, enrolei um segundo, mais gordo, e fumei quase a metade daquele também, antes que o quarto começasse a girar. Então o apa­guei.

Fiquei deitado nu, na cama, ouvindo os sons da noite que entra­vam pela janela aberta. O tilintar dos sinos dos riquixás misturava-se às buzinas, aos apelos dos ambulantes, à risada de uma mulher, à música de um bar nas redondezas. Deitado de costas, pirado demais para me mexer, fechei os olhos e deixei que o calor pré-monção me cobrisse inteiro, como um bálsamo. Senti-me como se estivesse derretendo no colchão. Uma procissão de cata-ventos intrincadamente desenhados e figurinhas de desenho animado, com grandes narigões, flutuavam pelos meus olhos fechados, em tons de néon.

Quando virei a cabeça de lado, minha orelha encostou em algo molhado; lágrimas, percebi então, estavam escorrendo pelo meu rosto e encharcando os lençóis. Senti uma bolha cada vez maior de dor e de vergonha subindo pela espinha, vinda de algum lugar lá no fundo. Irrompendo de meu nariz e de minha boca num fluxo de ranho, o pri­meiro soluço foi seguido de outro, depois de outro e mais outro.

No dia 19 de maio voltei aos Estados Unidos, levando duas mochi­las com os pertences de Doug Hansen para devolvê-los às pessoas que o amavam. No aeroporto de Seattle, fui recebido por seus filhos, Angie e Jaime; sua namorada, Karen Marie; e outros amigos e membros da família. Senti-me abobalhado e totalmente impotente diante de suas lágrimas.

Respirando o ar marinho denso que trazia o aroma da maré baixa, espantei-me com a fecundidade da primavera em Seattle e apreciei seus charmes úmidos e musgosos como nunca acontecera antes. Devagar e com hesitação, Linda e eu começamos o processo de reaproximação. Recuperei, e logo, os onze quilos que perdera no Nepal. Os prazeres comuns da vida rotineira - tomar o café da manhã com minha mulher, ver o sol baixando no estreito de Puget, acordar no meio da noite e ir descalço até um banheiro quente — geravam ondas de prazer que bei­ravam o êxtase. Entretanto, esses momentos eram temperados pela lon­ga penumbra lançada pelo Everest, que parecia retroceder muito pouco com a passagem do tempo.

Ainda com sentido de culpa, adiei os telefonemas para a compa­nheira de Andy Harris, Fiona McPherson, e para a mulher de Rob Hall, Jan Arnold, por tanto tempo que no fim foram elas que me ligaram da Nova Zelândia. Quando veio a ligação, não fui capaz de dizer nada para diminuir a raiva e o espanto de Fiona. Durante minha conversa com Jan, ela passou mais tempo me consolando do que eu a ela.

Eu sempre soube que escalar montanhas era uma atividade de alto risco. Eu aceitava que o perigo era um componente essencial do jogo - sem ele, escalar seria o mesmo que uma centena de outras diversões corriqueiras. Era emocionante confrontar o enigma da mortalidade, dar uma espiada de leve em suas fronteiras proibidas. Eu de fato acredita­va que o alpinismo era uma atividade magnífica, justamente pelos peri­gos inerentes do esporte e não apesar deles.

Até que eu visitasse o Himalaia, porém, nunca vira a morte de per­to. Antes de ir para o Everest, nunca tinha ido a um enterro! A mortali­dade permanecera um conceito de hipotética conveniência, uma idéia para se pensar de modo abstrato. Mais cedo ou mais tarde era inevitá­vel que eu perdesse tal inocência privilegiada, mas quando isso enfim ocorreu, o choque foi magnificado pelo caráter supérfluo da carnifici­na: tudo somado, o Everest matou doze homens e mulheres na primavera de 1996, o pior desastre numa única estação desde que os alpinis­tas puseram o pé no topo pela primeira vez, 75 anos antes.

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