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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 118 / 128

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Dos seis alpinistas da expedição de Hall que chegaram ao topo, apenas Mike Groom e eu descemos com vida: quatro companheiros com quem eu rira, vomitara e tivera longas e íntimas conversas perderam a vida. Meus atos — ou a falta deles — tiveram uma influência direta na morte de Andy Harris. E enquanto Yasuko Namba jazia, às portas da morte no colo sul, eu me achava a meros 350 metros dali, pro­tegido dentro de uma barraca, ignorante de sua luta, preocupado ape­nas com minha segurança. A mancha que isso deixou em minha psique não é o tipo de coisa que se lava após alguns meses de dor e auto-cen­sura culpada.

Acabei falando de minha inquietude a Klev Schoening, que mora­va bem perto. Klev disse que também se sentia péssimo com a perda de tantas vidas mas que, ao contrário de mim, não sentia a "culpa do sobre­vivente". Explicou-me ele: "Lá no colo sul, aquela noite, eu consumi tudo que tinha para tentar salvar-me e às pessoas que estavam comigo. Quando cheguei de volta às barracas, não tinha mais nada para dar. Estava com uma córnea congelada e quase cego. Estava com hipoter­mia, delirante e tremendo sem parar. Foi terrível perder Yasuko, mas já fiz as pazes comigo mesmo sobre esse assunto, porque sei, sinceramen­te, que não havia mais nada que pudesse fazer por ela. Você não deve­ria ser tão duro consigo mesmo. Foi uma tempestade terrível. No esta­do em que estava, o que poderia ter feito por ela?".

Talvez nada, concordei. Porém, ao contrário de Schoening, jamais terei certeza. E a paz invejável de que ele fala continua inatingível para mim.

Com tantos alpinistas apenas marginalmente preparados acorren­do ao Everest, hoje em dia, muita gente acreditava que uma tragédia dessa magnitude aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Mas ninguém cogitava na possibilidade de que uma expedição liderada por Rob Hall fosse estar no centro dela. Hall dirigia a operação mais segura da mon­tanha, sem exceção. Homem metódico por compulsão, elaborara siste­mas que supostamente evitariam uma catástrofe dessas. Então o que houve? Como explicar isso, não apenas aos entes queridos que ficaram para trás, mas também a um público severo em suas críticas?

O excesso de auto-confiança provavelmente desempenhou seu papel. Hall tornara-se tão versado em subir e descer o Everest com clientes de todas as habilidades que talvez tenha ficado meio presunço­so. Ele vangloriou-se em mais de uma ocasião que poderia levar qual­quer pessoa mais ou menos em forma até o topo; sua ficha parecia apoiá-lo. Também demonstrara uma notável capacidade de superar as

adversidades.

Em 1995, por exemplo, Hall e seus guias tiveram que se haver não só com os problemas de Hansen, já bem no topo, como também tiveram que lidar com o colapso total de uma outra cliente, chamada Chantal Mauduit, célebre alpinista francesa, que estava fazendo sua sétima escalada do Everest sem oxigênio. Chantal Mauduit desmaiou aos 8747 metros e teve que ser arrastada e carregada o tempo todo, do cume sul ao colo sul, "feito um saco de batatas", como disse Guy Cotter. Depois que todos saíram vivos desse ataque ao cume, Hall pode muito bem ter imaginado que não havia nada com que não pudesse lidar.

Antes de 1996, porém, Hall teve uma tremenda sorte com o tem­po, o que pode ter prejudicado sua faculdade de julgamento. "Tempo­rada após temporada", confirmou David Breashears, que já esteve em mais de uma dúzia de expedições ao Himalaia e que já escalou o Eve­rest três vezes, "Rob encontrou um tempo magnífico no dia do ataque ao cume. Nunca fora apanhado por uma tempestade na parte alta da montanha." Na verdade, o vendaval de 10 de maio, embora violento, não foi extraordinário: foi uma tempestade típica do Everest. Se tivesse caído duas horas mais tarde, é provável que ninguém tivesse morrido. Por outro lado, se tivesse caído uma hora antes, a tempestade poderia ter matado dezoito ou vinte alpinistas - eu inclusive.

Com certeza a hora também teve muito a ver com a tragédia, tanto quanto o tempo, e ignorar o relógio não é um ato da natureza. Atrasos na fixação das cordas eram previsíveis e poderiam muito bem ter sido evitados. Os horários predeterminados para dar meia-volta foram solenemente ignorados.

Prorrogar o horário de volta pode ter sido conseqüência, em parte, da rivalidade entre Fischer e Hall. Fischer nunca tinha guiado uma expedição ao Everest, antes de 1996. Da perspectiva dos negócios,

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