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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 119 / 128

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havia uma pressão tremenda em cima dele para conseguir chegar ao topo. Estava motivadíssimo a levar os clientes até lá, em especial uma celebridade como Sandy Hill Pittman.

Da mesma forma, não tendo conseguido levar ninguém até o topo em 1995, seria muito mau para os negócios de Hall se ele falhasse de novo em 1996 - sobretudo se Fischer conseguisse. Scott tinha uma personalidade carismática e esse carisma fora divulgado de forma agressiva por Jane Bromet. Fischer estava tentando de tudo para engolir a fatia de Hall, e Rob sabia disso. Diante das circunstâncias, a perspectiva de fazer seus clientes darem meia-volta enquanto os clientes de seu rival estavam avançando rumo ao topo pode ter tido um gosto suficientemente ruim para embotar o julgamento de Hall.

Nunca é demais enfatizar, além disso, que Hall, Fischer, nós todos, fomos forçados a tomar tais decisões críticas enquanto estávamos sob os efeitos severos da hipoxia. Ao se ponderar como esse desastre pode ter ocorrido, é imperativo lembrar que pensar com lucidez é impossível a 8800 metros de altitude.

A sabedoria vem fácil depois do fato. Chocados pelo número de vidas perdidas, os críticos logo sugeriram procedimentos para garantir que as catástrofes dessa estação não se repetissem. Propôs-se, por exemplo, que fosse estabelecida uma política de um guia por cliente como padrão para o Everest - ou seja, cada cliente subiria com seu guia pessoal e permaneceria amarrado a esse guia o tempo todo.

Talvez a forma mais simples de reduzir calamidades futuras fosse proibir o uso de oxigênio engarrafado, exceto em emergências médicas. Umas poucas almas inquietas poderiam perecer, tentando chegar ao topo sem oxigênio, mas a grande maioria dos alpinistas marginalmente competentes seria forçada a voltar por conta de suas próprias limitações físicas antes de subirem o suficiente para se meter em apuros mais sérios. E uma proibição dessas teria como benefício automático a redução de lixo e de gente, porque um número consideravelmente menor de pessoas tentaria subir o Everest, se soubessem que não haveria a opção de oxigênio suplementar.

Porém, o serviço de guia, no Everest, é um negócio muito mal regulamentado e, o que é mais, administrado por burocracias bizantinas de Terceiro Mundo, pessimamente equipadas para avaliar as qualificações tanto dos guias como dos clientes. Além disso, os dois países que controlam o acesso ao pico - o Nepal e a China - são paupérrimos. Desesperados atrás de moeda forte, os governos dos dois países têm interesse em conceder quantas permissões de escalada o mercado puder suportar; é improvável que estabeleçam medidas que reduzam significativamente seus dividendos.

Analisar o que deu errado no Everest é uma atividade bastante útil; é de se imaginar que possa evitar algumas mortes no caminho. Mas acreditar que dissecar os eventos trágicos de 1996 nos mínimos detalhes possa de fato reduzir a taxa de mortes de modo expressivo é bobagem. A necessidade de se catalogar a infinidade de pequenos erros para "aprender com eles" é, em grande parte, um exercício de rejeição e auto-ilusão. Se você conseguir se convencer de que Rob Hall morreu porque cometeu uma série de erros estúpidos e de que você é esperto demais para repetir esses mesmos erros, fica mais fácil ainda tentar o Everest, em que pesem evidências bem nítidas de que fazê-lo seria uma insensatez.

Na verdade, o resultado assassino de 1996 foi, de muitas maneiras, o de sempre. Embora um número recorde de pessoas tenha morrido na temporada de primavera, as doze mortes significaram apenas três por cento dos 398 alpinistas que subiram além do acampamento-base - o que vem a ser um número pouco inferior à taxa histórica de vítimas de 3,3 por cento. Ou então coloquemos assim: entre 1921 e maio de 1996, 144 pessoas morreram e o pico foi escalado umas 630 vezes - uma proporção de um para quatro. Na última primavera, doze alpinistas morreram e 84 chegaram ao topo - numa proporção de um para sete. Comparado a esses padrões históricos, 1996 foi, com efeito, um ano mais seguro que a média.

Verdade seja dita, escalar o Everest sempre foi um empreendimento extraordinariamente perigoso e sem dúvida sempre será, sejam os envolvidos neófitos acompanhados de guias ou alpinistas de classe internacional escalando junto com seus pares. Vale a pena notar que antes de a montanha reivindicar as vidas de Hall e Fischer, ela já tinha varrido todo um conjunto de alpinistas de elite, inclusive Peter Boardman, Joe Tasker, Marty Hoey, Jake Breitenbach, Mike Burke, Michel Parmentier, Roger Marshall, Ray Genet e George Leigh Mallory.

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