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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 121 / 128

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teto do mundo.

Na subida, Viesturs passara pelos corpos congelados de Fischer e Hall. "Tanto Jean [mulher de Fischer] quando Jan [mulher de Hall] me pediram para trazer algumas coisas pessoais deles", Viesturs diz, encabulado. "Eu sabia que Scott usava a aliança no pescoço e queria trazê-­la de volta para Jeannie, mas não consegui ter coragem de procurar. Simplesmente não consegui fazer isso." Em vez de pegar qualquer lembrança, Viesturs sentou-se ao lado de Fischer, durante a descida, e pas­sou alguns minutos sozinho com ele. "Ei, Scott, como é que vai indo?", Ed perguntou com tristeza ao amigo. "O que houve, cara?"

Na sexta à tarde, 24 de maio, enquanto a equipe da imax descia do acampamento 4 para o acampamento 2, encontraram o que sobrara da equipe sul-africana — Ian Woodall, Cathy O'Dowd, Bruce Herrod e três sherpas — na Franja Amarela, a caminho do colo sul e do topo. "Bruce me pareceu forte, estava com bom aspecto", recorda-se Breas­hears. "Ele apertou minha mão bem forte, nos cumprimentou, disse que estava se sentindo ótimo. Meia hora atrás dele estavam Ian e Cathy, caí­dos sobre o piolet, com uma cara péssima — estavam mal de verdade."

"Fiz questão de passar um tempinho com eles", Breashears conti­nua. "Eu sabia que não tinham experiência, de modo que disse: 'Por favor, tomem cuidado. Vocês viram o que aconteceu lá em cima no começo do mês. Lembrem-se de que chegar ao topo é a parte mais fácil; descer é que é duro'."

Os sul-africanos partiram para o topo aquela noite. O'Dowd e Woodall deixaram as barracas vinte minutos depois da meia-noite, com os sherpas Pemba Tendi, Ang Dorje (44) e Jangbu levando oxigênio para eles. Herrod parece ter deixado o acampamento minutos depois do grupo principal, mas foi ficando cada vez mais para trás, durante a esca­lada. No sábado, dia 25 de maio, às 9h50 Woodall chamou Patrick Con­roy, o operador de rádio no acampamento-base, para dizer que estava no topo com Pemba e que O'Dowd estaria lá em cima dali a quinze minutos, com Ang Dorje e Jangbu. Woodall disse ainda que Herrod, que não tinha rádio, estava a uma distância incerta, mais embaixo.

Herrod, a quem eu encontrara várias vezes na montanha, era um sujeito afável, de 37 anos, de constituição grandalhona. Embora não tivesse experiência prévia em grandes altitudes, era um alpinista com­petente que passara dezoito meses nas vastidões geladas da Antártida, trabalhando como geofísico — era de longe o melhor alpinista da atual equipe sul-africana. Desde 1988 vinha trabalhando duro para ser fotó­grafo free lance e esperava que chegar ao topo do Everest lhe daria o tão necessário empurrão na carreira.

Quando Woodall e Cathy O'Dowd estavam no cume, conforme transpareceu depois, Herrod ainda estava bem mais abaixo, subindo com dificuldade a crista sudeste sozinho, num ritmo perigosamente lento. Por volta das 12h30, passou por Woodall, O'Dowd e os três sher­pas, que já estavam voltando. Ang Dorje lhe passou um rádio e descre­veu o lugar onde guardara uma garrafa de oxigênio para ele, em segui­da Herrod prosseguiu sozinho rumo ao topo. Ele só chegou ao cume às 17h00, ou um pouco mais, sete horas após os outros que, a essa altura, já estavam de volta às barracas no colo sul.

Por coincidência, no mesmo momento em que Herrod chamou o acampamento-base para dizer que estava no topo, sua namorada, Sue Thompson, estava chamando Conroy ao telefone, via satélite, de sua casa em Londres. "Quando Patrick me disse que Bruce estava no topo", Thompson relembra, "eu disse: Droga! Ele não pode estar no topo assim tão tarde — são cinco e quinze! Não gosto disso."

Momentos depois, Conroy estabeleceu uma conexão entre ela e Herrod, no topo do Everest. "Bruce me parecia perfeitamente são", diz Sue Thompson. "Estava consciente de que levara um tempão para chegar lá, mas parecia tão normal quanto se pode estar àquela altitude, ten­do tirado a máscara de oxigênio para falar. Não me pareceu nem mes­mo muito ofegante."

Ainda assim, Herrod levara dezessete horas para subir do colo sul até o topo. Embora houvesse pouco vento, as nuvens agora envolviam a montanha e a escuridão não tardaria a chegar. Completamente só no teto do mundo, extenuado de cansaço, devia estar sem, ou quase sem, oxigênio. "Que ele estivesse ali assim tão tarde, sem mais ninguém por perto, era uma loucura", diz seu ex-colega de equipe, Andy de Klerk. "É absolutamente impensável."

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