X hits on this document

Word document

o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 122 / 128

559 views

0 shares

1 downloads

0 comments

122 / 128

Herrod tinha estado no colo sul de 9 a 12 de maio. Sentira a fero­cidade da tempestade, ouvira os chamados desesperados por rádio pedindo ajuda, vira Beck Weathers afetado por congelamentos horríveis. Durante sua escalada de 25 de maio, Herrod passara ao lado do cadáver de Scott Fischer e várias horas mais tarde, no cume sul, teria de pular as pernas sem vida de Rob Hall. Aparentemente, porém, os corpos não deixaram grandes marcas em Herrod, porque apesar do ritmo lento e do avançado da hora, ele continuou subindo rumo ao topo.

Não houve mais nenhuma comunicação via rádio da parte de Her­rod, após sua chamada das 17hl5, ainda no topo. "Sentamos à espera dele no acampamento 4 com o rádio ligado", O'Dowd explicou numa entrevista publicada no Mail & Guardian de Johannesburg. "Estáva­mos muito cansados e acabamos pegando no sono. Quando acordei na manhã seguinte, por volta das 5h00, e ele não havia chamado, percebi que o havíamos perdido."

Presumia-se que Bruce Herrod estivesse morto, a décima segun­da vítima da temporada.

EPÍLOGO

Seattle

29 de novembro de 1996

82 m

Agora sonho com o toque macio das mulheres, música de pássa­ros, cheiro de terra esmigalhada nos dedos, com o esplêndido verde de plantas bem cuidadas. Estou procurando umas terras para comprar e vou enchê-las de veados, javalis, pássaros, chou­pos e plátanos, vou construir uma lagoa, patos hão de surgir, os peixes subirão à tona, à luz da tarde, para apanhar os insetos. Haverá alamedas por essa floresta e você e eu nos perderemos nas curvas e dobras suaves do terreno. Iremos até a beira da água, deitaremos na grama e haverá uma pequena placa discre­ta dizendo: "Este é o mundo real, muchachos, e estamos todos nele" B. Traven. [...]

Charles Bowden

Blood orchid

Várias pessoas que estiveram no Everest em maio passado disse­ram-me que conseguiram superar a tragédia. Em meados de novembro, recebi uma carta de Lou Kasischke, na qual escreveu:

Levou alguns meses, no meu caso, até que os aspectos positivos começassem a surgir. Porém surgiram. O Everest foi a pior experiência de mi­nha vida. Mas isso já passou. Agora é agora. Estou centrado no positivo. Aprendi algumas coisas importantes sobre a vida, sobre os outros e sobre mim mesmo. Sinto que agora tenho uma perspectiva mais clara da vida. Hoje vejo coisas que nunca havia visto antes.

Lou tinha acabado de passar um fim de semana com Beck Wea­thers, em Dallas. Depois de ser levado por helicóptero do Circo Oeste, Beck teve seu braço direito amputado até pouco abaixo do cotovelo. Todos os quatro dedos e o polegar de sua mão esquerda foram removi­dos. Seu nariz foi amputado e reconstruído com tecido de sua orelha e testa. Lou refletiu, depois de visitar Beck,

[que] foi ao mesmo tempo triste e triunfante. Dói ver Beck desse jeito: nariz reconstruído, cicatrizes no rosto, mutilado para sempre, ele se per­gunta se poderá voltar a exercer a medicina e coisas assim. Porém, tam­bém foi extraordinário ver como um homem pode aceitar tudo isso e estar pronto para continuar com a vida. Ele está conquistando isso. Será vito­rioso.

Beck só teve coisas boas para dizer a respeito de todos. Beck não joga o jogo da culpa. Você pode não partilhar de suas idéias políticas, mas par­tilharia de meu orgulho em ver como ele está lidando com isso. De algu­ma forma, algum dia, tudo isso vai render dividendos positivos para ele.

Sinto-me contente que Beck, Lou e outros tenham, aparentemen­te, conseguido ver o lado positivo da experiência - e os invejo. Talvez, depois de mais algum tempo, também eu seja capaz de reconhecer parte do bem maior que resultou de tanto sofrimento, mas neste exato momento não posso.

Enquanto escrevo estas palavras, meio ano já se passou desde que voltei do Nepal e em cada um desses dias, durante esses seis meses, não se passaram mais de duas ou três horas sem que o Everest voltasse a monopolizar meus pensamentos. Nem mesmo no sono há uma trégua: imagens da escalada e do que houve depois continuam a permear meus sonhos.

Depois de meu artigo sobre a expedição ter sido publicado, na edi­ção de setembro da Outside, a revista recebeu um volume inesperadamente grande de correspondência. Boa parte dela oferecia apoio

Document info
Document views559
Page views687
Page last viewedSat Dec 10 20:53:00 UTC 2016
Pages128
Paragraphs1519
Words87495

Comments