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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 123 / 128

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e simpatia para aqueles de nós que havíamos regressado, mas também houve muitas cartas fazendo críticas contundentes. Por exemplo, um advoga­do da Flórida disse:

Tudo que posso dizer é que concordo com Krakauer quando ele diz: "Meus atos — ou a falta deles — desempenharam um papel direto na morte de Andy Harris". Também concordo com ele quando diz: "[Ele estava] a meros 350 metros [de distância], deitado dentro de uma barra­ca, sem fazer absolutamente nada. [...]" Não sei como ele pode viver con­sigo mesmo.

Algumas das cartas mais iradas — e de longe as mais perturbado­ras de ler — vieram de parentes dos mortos. A irmã de Scott Fischer, Lisa Fischer-Luckenbach, escreveu:

Baseado em sua palavra escrita, você com certeza parece ter uma capaci­dade excepcional para saber exatamente o que estava se passando no coração e na mente de cada um dos indivíduos da expedição. Agora que você está em casa, a salvo e bem, julgou a decisão dos outros, analisou suas intenções, comportamentos, personalidades e motivações. Comen­tou o que deveria ter sido feito pelos líderes, pelos sherpas, pelos clien­tes e fez muitas acusações arrogantes a seus erros. Tudo segundo Jon Krakauer que, após pressentir a catástrofe, voltou rapidinho para sua barraca, para sua própria segurança e sobrevivência. [...]

Quem sabe deveria dar uma espiada no que está fazendo ao, aparentemente, saber tudo. Você já havia se enganado com suas especulações em torno do que acontecera com Andy Harris, causando muita dor e angús­tia à família e aos amigos dele. E agora denigre também o caráter de Lop­sang com "conversa fiada".

O que estou lendo é seu próprio ego lutando com desespero para dar sentido ao que aconteceu. Por mais que você analise, critique, julgue ou teça hipóteses, isso não lhe trará a paz que está procurando. Não há res­postas. A culpa não foi de ninguém. Estavam todos fazendo o melhor pos­sível naquele momento, nas circunstâncias dadas.

Ninguém pretendia prejudicar ninguém. Ninguém queria morrer.

Esta última carta foi, em particular, desconcertante, porque eu a recebi pouco depois de ficar sabendo que a lista de vítimas crescera para incluir também Lopsang Jangbu. Em agosto, após o fim da mon­ção no alto Himalaia, Lopsang retornara ao Everest para guiar um cliente japonês pela rota do colo sul e crista sudeste. No dia 25 de setembro, enquanto estavam subindo do acampamento 3 para o acam­pamento 4, para escalar o cume, uma avalanche engoliu Lopsang, um outro sherpa e um alpinista francês pouco abaixo do esporão de Gene­bra e carregou-os pelo flanco do Lhotse. Lopsang deixou uma mulher jovem e um bebê de dois meses em Katmandu.

E houve mais notícias más. Em 17 de maio, depois de descansar apenas dois dias no acampamento-base, após ter descido do Everest, Anatoli Boukreev escalou sozinho o cume do Lhotse. "Estou cansado", ele me disse, "mas vou por Scott." Continuando sua tentativa de escalar o cume das catorze montanhas com mais de 8 mil metros, em setembro Boukreev viajou para o Tibete e escalou o Cho Oyu e o Shisha Pangma, de 8013 metros. Porém, em meados de novembro, durante uma visita a seu Cazaquistão natal, o ônibus em que viajava sofreu um acidente. O motorista morreu e Anatoli teve sérios ferimentos na cabeça, inclusive um bastante grave, e possivelmente permanente, num dos olhos.

No dia 14 de outubro, 1996, a seguinte mensagem foi colocada na Internet, como parte do fórum de discussões sul-africano sobre o Everest:

Sou um órfão sherpa. Meu pai morreu na cascata de gelo do Khumbu enquanto transportava carga para uma expedição, no final dos anos 60. Minha mãe morreu logo abaixo de Pheriche, quando seu coração acabou cedendo sob o peso da carga que levava para uma outra expedição, em 1970. Três de meus irmãos morreram de causas variadas, minha irmã e eu fomos mandados para casas de adoção, na Europa e nos Estados Unidos.

Nunca mais voltei à minha terra natal porque acho que está amaldiçoa­da. Meus ancestrais chegaram à região do Khumbu fugindo de persegui­ções nas terras baixas. Ali encontraram um santuário, à sombra do "Sagarmathaji", "deusa mãe da terra". Em troca, meu povo deveria pro­teger o santuário dos estranhos.

Porém, eles foram pelo caminho oposto. Ajudaram os estranhos a encontrarem um caminho até o santuário e violar cada membro de seu corpo, ao se postarem em cima da deusa, bradando vitória, sujando e poluindo seu seio. Alguns se sacrificaram, outros escaparam por um triz ou ofereceram outras vidas em seu lugar. [...]

Portanto, acredito que até os sherpas são responsáveis pela tragédia de 1996 em "Sagarmatha". Não lamento nunca mais ter voltado, porque sei que o povo da região está condenado, assim como estão aqueles ricos e arrogantes forasteiros que acham que podem conquistar o mundo. Lem­brem-se do Titanic. Até mesmo o que não poderia ser afundado afundou, e o que são tolos mortais como Weathers,

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