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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 124 / 128

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Pittman, Fischer, Lopsang, Tenzing, Messner, Bonington perante a "Deusa Mãe"? Como tal, jurei nunca mais regressar e participar desse sacrilégio.

O Everest parece ter envenenado muitas vidas. Houve relaciona­mentos rompidos. A mulher de uma das vítimas foi hospitalizada, com depressão. Quando falei pela última vez com um certo companheiro, sua vida estava em turbilhão. Ele contou que a dificuldade em lidar com os efeitos da expedição estava ameaçando seu casamento. Não conse­guia se concentrar no trabalho e estava recebendo insultos e censuras de estranhos.

Ao voltar para Manhattan, Sandy Pittman descobriu que se torna­ra um pára-raio para grande parte da ira pública diante do que aconte­cera no Everest. A revista Vanity Fair publicou um artigo devastador sobre ela, na edição de agosto de 1996. Uma equipe de televisão de um programa em forma de tablóide, chamado Hard Copy, cercou-a na frente do prédio onde mora. O escritor Christopher Buckley usou os problemas que ela teve em grande altitude como fecho de ouro de uma piada na última página do The New Yorker. Por volta do outono, as coi­sas estavam tão malparadas que ela confessou a uma amiga, chorando, que o filho estava sendo ridicularizado e evitado pelos colegas, numa escola particular de elite. A intensidade cáustica da ira pública em torno do que houve no Everest — e o fato de que boa parte foi dirigida contra ela — tomou Sandy Pittman de surpresa, deixando-a abalada.

Em relação a Neal Beidleman, que ajudou a salvar a vida de cinco clientes guiando-os montanha abaixo, entretanto, continua a persegui­ção por uma morte que ele não pôde evitar, a de uma cliente que não estava em sua equipe e que, portanto, não era sequer sua responsabili­dade oficial.

Conversei com Beidleman depois de já termos os dois passado pelo período de readaptação e ele se lembrou de como foi estar lá no colo sul, com seu grupo, naquele vento terrível, tentando desesperadamente manter todos vivos. "Assim que o céu clareou o suficiente para nos dar uma idéia de onde ficava o acampamento", ele contou, "foi como um 'Ei, essa trégua na tempestade pode não durar muito, por isso vamos! Eu estava gritando com todo mundo para que se mexessem, mas ficou claro que algumas pessoas não tinham forças para andar, nem mesmo para ficar em pé."

"As pessoas estavam chorando. Ouvi alguém gritar: 'Não me deixe morrer aqui!'. Estava óbvio que era agora ou nunca. Tentei pôr Yasuko de pé. Ela agarrou meu braço, mas estava fraca demais para levantar mais que os joelhos. Comecei a andar e arrastei-a um ou dois passos, depois ela foi se soltando e caiu. Eu precisava continuar andan­do. Alguém tinha que chegar às barracas e conseguir ajuda, senão todos morreriam."

Beidleman parou. "Mas não posso evitar de lembrar de Yasuko", ele disse, quando voltou a falar, a voz abafada. "Ela era tão pequena. Ainda hoje sinto seus dedos escorregando pelo meu braço e depois me soltando. Eu nem parei para olhar para trás."

NOTA DO AUTOR

Meu artigo na Outside deixou irritadas muitas pessoas sobre as quais escrevi e magoou amigos e parentes de algumas das vítimas do Everest. Lamen­to sinceramente que isso tenha ocorrido — não era meu objetivo fazer mal a nin­guém. Minha intenção no artigo, e em muito maior grau neste livro, foi contar o que aconteceu na montanha da forma mais correta e honesta possível, fazen­do-o de maneira sensível e respeitosa. Acredito com firmeza que essa é uma his­tória que precisa ser contada. É óbvio que nem todos acham o mesmo e peço desculpas àqueles que se sentirem ofendidos com minhas palavras.

Além disso, gostaria de expressar minhas profundas condolências a Fiona McPherson, Ron Harris, Mary Harris, David Harris, Jan Arnold, Sarah Arnold, Eddie Hall, Millie Hall, Jaime Hansen, Angie Hansen, Bud Hansen, Tom Hansen, Steve Hansen, Diane Hansen, Karen Marie Rochel, Kenichi Namba, Jean Price, Andy Fischer-Price, Katie Rose Fischer-Price, Gene Fis­cher, Shirley Fischer, Lisa Fischer-Luckenbach, Rhonda Fischer Salerno, Sue Thompson e Ngawang Sya Kya.

Ao escrever este livro, recebi a valiosa assistência de muita gente, porém Linda Mariam Moore e David S. Roberts merecem menção especial. Não ape­nas por seus conselhos experientes e fundamentais a este volume como tam­bém porque, sem seu apoio e incentivo, eu jamais teria tentado esse dúbio negócio de ganhar a vida escrevendo, nem teria ficado nele tanto tempo.

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