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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 15 / 128

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A parte superior do paredão da crista sudeste do Everest é uma faixa afilada de rocha, cheia de bancadas de gelo, ou icebergs suspensos, coberta de neve varrida por ventos, que serpenteia por uns quatrocentos metros entre o cume principal e um pico subordinado conhecido pelo nome de cume sul. Atravessar aquela crista serrilhada não apresenta grandes dificuldades técnicas, mas é uma rota exposta demais. Após deixar o cume principal, foram quinze minutos de cuidadosa caminhada por sobre um abismo de 2133 metros até o famoso escalão Hillary, um chanfro pronunciado na crista, que exige certa habilidade técnica. Assim que me engatei numa corda fixa para fazer o rappel (2) pela borda, deparei com uma visão assustadora.

Um pouco abaixo, a cerca de nove metros, havia mais de uma dúzia de pessoas enfileiradas na base do escalão. Três alpinistas já estavam subindo, atrelados à mesma corda pela qual eu me preparava para descer. Minha única opção foi desengatar-me da linha comunitária de segurança e sair do caminho.

O congestionamento era formado por alpinistas de três expedições: a equipe a que eu pertencia, com um grupo de clientes pagantes liderados pelo célebre guia neozelandês Rob Hall; uma outra equipe guiada pelo norte-americano Scott Fischer; e uma equipe taiwanesa não comercial. Movendo-se no passo de lesma que vem a ser a norma acima dos 7900 metros, as pessoas iam subindo com grande dificuldade o escalão Hillary, uma a uma, enquanto eu contava os segundos.

Harris, que saíra do cume pouco depois de mim, logo encostou atrás. Querendo conservar o pouco oxigênio que me restava na garrafa, pedi-lhe que enfiasse a mão em minha mochila e desligasse a válvula do regulador; foi o que ele fez. Durante os dez minutos seguintes senti-me muito bem. Minha cabeça clareou. Na verdade, eu parecia menos cansado do que estivera com o oxigênio ligado. Aí, de repente, senti que estava sufocando. Minha vista escureceu e a cabeça começou a girar. Estava à beira de perder os sentidos.

Mentalmente alterado pela hipoxia, Harris se confundira e, em vez de fechar o oxigênio, abrira de vez a válvula, esvaziando a garrafa. Eu acabara de desperdiçar o pouco que me restava de oxigênio, para não ir a lugar algum. Havia uma outra garrafa à minha espera no cume sul, 76 metros abaixo; contudo, para chegar até lá, teria que descer o terreno mais exposto da rota sem auxílio de oxigênio suplementar.

Antes, porém, era preciso esperar a multidão passar. Tirei a máscara, agora inútil, enterrei minha picareta de gelo na carapaça congelada da montanha, agachando-me na aresta. Enquanto trocava os cumprimentos de praxe com os alpinistas que passavam, gritava por dentro: "Depressa, depressa!". Em silêncio, eu implorava. "Enquanto vocês ficam aí nessa moleza estou perdendo milhões de células do cérebro!"

A maioria dos que estavam passando pertencia ao grupo de Fis­cher, mas quase no fim da procissão dois de meus companheiros de equipe apareceram, Rob Hall e Yasuko Namba. Séria e reservada, aos 47 anos de idade Yasuko estava a quarenta minutos de se tornar a mulher mais velha do mundo a escalar o Everest e a segunda japonesa a atingir o ponto mais alto de cada um dos continentes, os chamados Sete Cumes. Embora pesasse apenas 41 quilos, seu físico de passarinho escondia uma força de vontade descomunal; em grande medida, Yasuko fora impelida montanha acima pela inabalável intensidade de seu desejo.

Mais tarde ainda, Doug Hansen chegou ao topo do escalão. Também integrante de nossa expedição, Doug era funcionário dos correios de um bairro de Seattle e tornara-se meu melhor amigo na montanha. "Está no papo!", berrei por cima do vento, tentando parecer mais animado do que me sentia. Exausto, Doug resmungou alguma coisa que eu não entendi por trás da máscara de oxigênio, apertou fracamente minha mão, depois continuou se arrastando montanha acima.

Bem no fim da fila estava Scott Fischer, a quem eu conhecia de vista, de Seattle, onde ambos morávamos. O vigor e a energia de Fis­cher eram lendários — em 1994 ele escalara o Everest sem usar oxigênio artificial —, e por isso fiquei surpreso ao ver a lentidão com que se movia e seu aspecto abatido, revelado quando puxou a máscara de lado para dar um alô. Com uma alegria forçada, ofegante, cumprimentou-me com seu "Bruuuuuuuce!", uma saudação jovial de confraria, sua marca registrada. Quando lhe perguntei como estava indo, Fischer insistiu que estava ótimo: "Só um pouco

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