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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 16 / 128

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devagar hoje, por algum motivo. Nada de mais". Com o escalão Hillary finalmente livre, engatei-me na corda laranja, dei a volta por trás de Fischer, que descansava apoiado no piolet, e fiz o rappel do degrau atrelado na corda.

Já passava das três da tarde quando enfim atingi o cume sul. Àquela altura, fiapos de neblina estavam começando a cobrir os 8510 metros do topo do Lhotse e a lamber a pirâmide do cume do Everest. O tempo não parecia mais tão benigno. Peguei um novo cilindro de oxigênio, enfiei no regulador e me apressei a descer em direção às nuvens que se aglomeravam. Momentos depois que ultrapassei o cume sul, começou a neviscar e a visibilidade foi para o espaço.

Mais acima, a 121 metros verticais, onde o cume continuava banhado de sol, sob um céu perfeitamente límpido, meus companheiros perdiam tempo comemorando sua chegada ao ápice do planeta, desfraldando bandeiras e batendo fotos, desperdiçando segundos preciosos. Nenhum deles imaginava que uma provação horrenda estava se avizinhando. Ninguém suspeitava que, ao final daquele longo dia, cada minuto seria de extrema importância.

2. Dehra Dun, Índia

1852

680 m

Longe das montanhas, durante o inverno, descobri uma foto esmaecida do Everest no livro Book of marvels, de Richard Hal­liburton. Era uma péssima reprodução, na qual os picos dentados erguiam-se de encontro a um céu quase grotesco de tão enegrecido e arranhado. O Everest propriamente dito, atrás de todos os demais, nem sequer parecia o mais alto mas isso não tinha a menor importância. Ele era o mais alto: assim dizia a lenda. A chave para a foto estava nos sonhos que permitiam a um garoto penetrá-lo, parar sobre a crista varrida pelos ventos e subir rumo ao cume, agora já não muito distante. [...]

Esse é um daqueles sonhos desinibidos que chegam quando se está crescendo. Eu tinha certeza de que o meu, a respeito do Everest, não era apenas meu; o ponto mais alto da Terra, inatingível, estranho a toda e qualquer presença, estava ali para muitos garotos e homens-feitos almejarem.

Thomas F. Hornbein

Everest: the west ridge

Os pormenores do evento já não são muito nítidos, distorcidos que foram pelo acréscimo do mito. O ano era 1852, e a cena se passou nos escritórios do Great Trigonometrical Survey of Índia, instituto incumbido de realizar levantamentos topográficos, situado na região montanhosa de Dehra Dun, no norte da Índia. Segundo a versão mais plausível do ocorrido, um funcionário entrou esbaforido no gabinete de sir Andrew Waugh, topógrafo-geral, dizendo que um computador bengali chamado Radhanath Sikhdar, que trabalhava na repartição de Calcutá, "havia descoberto a montanha mais alta do mundo". (Nos tempos de Waugh computador era quem fazia cômputos e cálculos, não uma máquina.) Designado Pico XV por topógrafos em campo, que haviam medido pela primeira vez o ângulo de sua elevação com um teodolito de sessenta centímetros, três anos antes, a montanha em questão sobressaía da espinha do Himalaia, no reino proibido do Nepal.

Até que Sikhdar compilasse os dados do levantamento topográfico e fizesse os cálculos matemáticos, ninguém suspeitou que houvesse qualquer coisa de notável com o Pico XV. Os seis locais de onde o cume fora triangulado ficavam no norte da Índia, a mais de 160 quilômetros da montanha. Para os topógrafos, tirando-se o miolo do cume do Pico XV, tudo o mais estava ocultado por várias escarpas em primeiro plano, muitas delas dando a ilusão de serem bem maiores. Todavia, segundo os meticulosos cálculos trigonométricos de Sikhdar (que levou em conta fatores como a curvatura da Terra, a refração atmosférica e a deflexão da linha de prumo), o Pico XV estava a 8839,80 (3) metros acima do nível do mar e era, portanto, o ponto mais alto do planeta.

Em 1865, nove anos após os cálculos de Sikhdar terem sido confirmados, Waugh deu ao Pico XV o nome de monte Everest, em homenagem a sir George Everest, seu antecessor como topógrafo-geral. No entanto, os tibetanos que moravam ao norte da grande montanha já tinham um nome mais melífluo para ela, Chomolungma, que se poderia traduzir como "deusa mãe do mundo"; os nepaleses que moravam ao sul chamavam o pico de Sagarmatha, "deusa do céu". Waugh, porém decidiu ignorar deliberadamente os nomes nativos (assim como a recomendação oficial de conservar os nomes locais ou antigos), e no fim Everest foi o nome que pegou.

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