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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 17 / 128

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Uma vez estabelecido que o Everest era o pico mais alto da Terra, foi apenas uma questão de tempo até que as pessoas decidissem que precisavam escalá-lo. Depois que o explorador norte-americano Robert Peary proclamou ter chegado ao Pólo Norte, em 1909, e Roald Amundsen liderou uma equipe norueguesa ao Pólo Sul, em 1911, o Everest - o chamado Terceiro Pólo - tornou-se o objeto mais cobiçado no reino das explorações terrestres. Chegar ao topo, declarou Gunther O. Dyren-furth, um influente alpinista e cronista das primeiras expedições ao Himalaia, era "uma questão de empenho humano universal, uma causa da qual não há como fugir, sejam quais forem as perdas que exija".

Essas perdas, como se veria a seguir, não foram insignificantes. Após a descoberta de Sikhdar, em 1852, seriam necessários a vida de 24 homens, os esforços de quinze expedições e o transcorrer de 101 anos até que o cume do Everest fosse finalmente atingido.

Entre alpinistas e outras pessoas conhecedoras de formas geológicas, o Everest não é tido como um pico muito bonito. Suas formas são muito parrudas, muito esparramadas, entalhadas de modo rude. Contudo, o que lhe falta em graça arquitetônica o Everest compensa com sua massa esmagadora.

Demarcando a fronteira entre o Nepal e o Tibete, assomando a mais de 3650 metros acima do vale em sua base, o Everest surge como uma pirâmide com três lados de gelo reluzente e rocha escura, estriada. As oito primeiras expedições ao Everest foram britânicas e todas tentaram escalar a montanha pelo lado norte, tibetano - não tanto porque essa face apresentasse fraquezas mais óbvias nas fantásticas defesas do pico, e sim porque em 1921 o governo tibetano enfim abriu suas fronteiras aos estrangeiros, ao passo que o Nepal continuava decididamente fora de alcance.

Os primeiros a tentar o Everest tinham que sair de Darjeeling e percorrer, a pé, mais de 640 árduos quilômetros do platô tibetano para alcançar apenas o sopé da montanha. O conhecimento que tinham dos efeitos mortais de altitudes extremas era mínimo; seu equipamento, pelos padrões modernos, parecia patético de tão inadequado. Ainda assim, em 1924, um integrante da terceira expedição britânica, Edward Felix Norton, subiu a 8572 metros — meros 276 metros abaixo do cume —, antes de se ver derrotado pela exaustão e pela nifablepsia, uma cegueira temporária provocada pela reflexão da neve. Foi um feito extraordinário, que provavelmente não seria superado pelos 29 anos seguintes.

Digo "provavelmente" em razão do que veio à tona quatro dias depois do ataque de Norton ao cume. Na madrugada do dia 8 de junho, dois outros integrantes da equipe britânica de 1924, George Leigh Mallory e Andrew Irvine, deixaram o acampamento avançado em direção ao topo.

Mallory, cujo nome está ligado ao Everest para sempre, foi uma das forças motrizes por trás das três primeiras expedições ao pico. Durante um ciclo de palestras pelos Estados Unidos, ilustradas com slides, foi ele quem revidou com a famosa frase: "Porque está lá", quando um irritante jornalista lhe perguntou por que motivo queria escalar o Everest. Em 1924, Mallory era um professor de 38 anos, casado e com três crianças pequenas. Filho da alta burguesia inglesa, era também um esteta e um idealista, de sensibilidade decididamente romântica. Sua graça atlética, seu charme social e extraordinária beleza física o haviam tornado um dos favoritos do biógrafo Lytton Strachey e dos demais intelectuais e artistas do grupo de Bloomsbury. Confinados dentro da barraca, na encosta do Everest, Mallory e seus companheiros liam em voz alta, um para o outro, trechos de Hamlet e Rei Lear.

No momento em que Mallory e Irvine subiam, com extrema dificuldade, em direção ao cume do Everest, em 8 de junho de 1924, a neblina encobriu a parte superior da pirâmide, impedindo que os companheiros, mais abaixo na montanha, acompanhassem o progresso dos dois alpinistas. Às 12h50, um dos companheiros de equipe, Noel Odell, avistou por breves momentos a silhueta de Mallory e Irvine lá no alto. Estavam com cerca de cinco horas de atraso, mas "movendo-se com deliberação e diligência" rumo ao topo.

Os dois alpinistas, no entanto, não voltaram à barraca naquela noite. Mallory e Irvine nunca mais foram vistos. Desde então, é motivo de acalorados debates se um ou ambos conseguiram chegar ao cume antes de serem tragados pela montanha e pela lenda. Os indícios existentes sugerem que não. De todo modo, sem provas palpáveis, não receberam o crédito pela primeira escalada.

Em 1949, após séculos de impenetrabilidade, o Nepal abriu suas fronteiras ao mundo exterior e, um ano mais tarde, o então novo regime comunista na China fechava o Tibete aos estrangeiros. Aqueles que queriam escalar o Everest transferiram, portanto, suas atenções para o lado sul do pico. Na primavera de 1953, uma grande equipe britânica, organizada com o zelo e os recursos esmagadores de uma campanha militar, tornou-se a terceira expedição a tentar o Everest a partir do

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