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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 18 / 128

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Nepal. No dia 28 de maio, depois de dois meses e meio de esforços prodigiosos, um acampamento avançado foi estabelecido com precariedade na crista sudeste, a 8500 metros. Na manhã seguinte, bem cedo, Edmund Hillary, um neozelandês esguio, e Tenzing Norgay, um alpinista sherpa altamente especializado, partiram em direção ao topo, respirando oxigênio artificial.

Por volta das 9h00 estavam no cume sul, diante da estonteante crista estreita que leva ao pico propriamente dito. Uma hora depois estavam ao pé do que Hillary descreveu como "o problema mais espinhoso da crista - um escalão de rocha de uns 12 metros de altura. [...] A rocha em si, lisa e quase sem pontos de apoio, poderia ter sido um interessante desafio domingueiro para um grupo de alpinistas experientes na região inglesa de Lake District, porém ali era uma barreira cuja superação ia muito além de nossas frágeis forças".

Tenzing ficou embaixo e foi soltando a corda, nervoso, enquanto Hillary, enfiando-se numa greta entre o paredão de rocha e uma rebarba de neve em sua beirada, começava a lenta escalada do que seria conhecido dali em diante como escalão Hillary. A subida foi penosa e imperfeita, mas Hillary insistiu até que, como mais tarde escreveria,

consegui finalmente alcançar o topo da rocha e me arrastar para fora da fenda, até uma larga saliência. Por alguns momentos fiquei ali deitado, recuperando o fôlego e, pela primeira vez, senti de fato a determinação feroz de que nada poderia nos impedir de chegar ao topo. Firmei-me na plataforma e fiz sinal para Tenzing subir. Puxei firme a corda e Tenzing veio subindo, contorcendo-se greta acima, até finalmente chegar ao topo, exausto, desabando como um peixe gigante que acabou de ser içado do mar após uma luta terrível.

Lutando contra a exaustão, os dois alpinistas continuaram subindo pela crista ondulada. Hillary então se perguntou,

meio embotado, se ainda teríamos forças suficientes para chegar até lá. Dei a volta por trás de outra saliência de rocha e vi que a crista adiante descia; dava para enxergarmos até o Tibete. Olhei para o alto e lá, acima de nós, havia um cone redondo de neve. Algumas estocadas do piolet, uns poucos passos cautelosos e Tensing [sic] e eu estávamos no topo.

Foi assim que, pouco antes do meio-dia do dia 29 de maio de 1953, Hillary e Tenzing tornaram-se os primeiros homens a pisar no topo do monte Everest.

Três dias depois, a rainha Elizabeth, às vésperas de sua coroação, soube da escalada. O Times de Londres publicou a notícia na manhã do dia 2 de junho, em sua primeira edição. O boletim fora despachado do Everest via rádio, numa mensagem codificada (para evitar que os j ornais rivais publicassem o fato na frente do Times) por um jovem correspondente chamado James Morris, que, vinte anos depois, tendo obtido estima razoável como escritor, mudaria de sexo e passaria a se chamar Jan. Como escreveu Morris, quatro décadas depois da portentosa escalada, em Coronation Everest: thefirst ascent and the scoop that crowned lhe queen:

É difícil imaginar, hoje, a satisfação quase mística com que a coincidência dos dois acontecimentos [a coroação e a conquista do Everest] foi recebida na Grã-Bretanha. Saindo, enfim, da austeridade infernal que reinava desde a Segunda Guerra, mas ao mesmo tempo enfrentando a perda de um grande império e o inevitável declínio de seu poderio no mundo, os britânicos estavam semiconvencidos de que a jovem rainha era o símbolo de um novo começo — de uma nova era elisabetana, como os jornais gostavam de dizer. O Dia da Coroação, 2 de junho de 1953, seria um dia de esperança simbólica e júbilo, no qual todos os sentimentos patrióticos britânicos encontrariam um momento perfeito de expressão. E, maravilha das maravilhas, naquele mesmo dia, de lugares longínquos — na verdade das fronteiras do antigo império —, chega a notícia de que uma equipe britânica de alpinistas [...] havia atingido o objetivo supremo das explorações e aventuras terrestres restantes, o topo do mundo. [...]

O momento despertou toda uma sinfonia de fortes emoções entre os britânicos — orgulho, patriotismo, nostalgia pelo passado perdido de guerras e ousadia, esperança de um futuro revigorado. [...] Até hoje pessoas de uma certa idade lembram-se com clareza daquela manhã, quando, à espera da passagem do cortejo da coroação pelas ruas de Londres, sob a garoinha fina de junho, ouviram a notícia mágica de que o topo do mundo era, por assim dizer, seu.

Tenzing tornou-se um herói nacional por toda Índia, Nepal e Tibete, cada qual reivindicando para si a honra de tê-lo como cidadão. Sagrado cavaleiro pela rainha, sir Edmund Hillary viu sua imagem reproduzida em selos, histórias em quadrinhos, livros, filmes, capas de revista — da noite para o dia, o

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