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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 19 / 128

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apicultor de Auckland de cara comprida e fina se via transformado num dos homens mais famosos da Terra.

Hillary e Tenzing subiram o Everest um mês antes que eu fosse concebido, de modo que não participei da emoção coletiva de orgulho e espanto que varreu o mundo — um acontecimento que um amigo mais velho diz ser comparável, em termos de impacto, à primeira vez em que o homem pousou na Lua. Uma década mais tarde, porém, uma outra escalada da montanha ajudou a traçar a trajetória de minha vida.

No dia 22 de maio de 1963, Tom Hornbein, um médico de 32 anos do Missouri, e Willi Unsoeld, 36, professor de teologia do Oregon, chegaram ao cume do Everest pela temível crista oeste, que até então nunca fora escalada. Aquela altura o cume já fora atingido em quatro ocasiões, por onze homens, entretanto a crista oeste era tida como muito mais difícil do que as duas outras rotas já estabelecidas: colo sul e crista sudeste, colo norte e crista nordeste. A escalada de Hornbein e Unsoeld foi - e continua sendo - merecidamente considerada como um dos maiores feitos nos anais do alpinismo.

Na ocasião, com o dia já bem avançado, os dois americanos escalaram um estrato de rocha empinada e quebradiça - a infame Franja Amarela. Superar esse penhasco exigia força e habilidade descomunais; até então, nada que representasse tamanho desafio técnico fora escalado numa altitude daquelas. Uma vez no topo da Franja Amarela, Hornbein e Unsoeld pressentiram que não conseguiriam descer com segurança. Sua melhor opção para sair da montanha com vida, concluíram eles, seria passar pelo topo e descer pela já bem estabelecida crista sudeste, um plano extremamente audacioso, considerando o avançado da hora, o terreno desconhecido e a reserva cada vez mais baixa na garrafa de oxigênio.

Hornbein e Unsoeld chegaram ao cume às 18h 15, bem no momento em que o sol estava se pondo, e foram forçados a passar a noite ao relento, acima de 8500 metros — na época o acantonamento mais alto da história. A noite estava fria mas, por sorte, sem vento. Embora os dedos do pé de Unsoeld tenham congelado e sido amputados depois, ambos sobreviveram para contar a história.

Eu tinha nove anos, na época, e morava em Corvallis, Oregon, onde Unsoeld também fixara residência. Ele era amigo íntimo de meu pai; às vezes eu brincava com os filhos mais velhos dele — Regon, que tinha um ano mais que eu, e Devi, um ano mais novo. Poucos meses antes de Willi Unsoeld partir para o Nepal, cheguei ao cume de minha primeira montanha—meros 2743 metros na cadeia das Cascatas, hoje agraciada com um teleférico até o topo — em companhia de meu pai, Willi e Regon. É óbvio que os relatos da epopéia de 1963 no topo do Everest ressoaram retumbante e demoradamente em minha imaginação pré-adolescente. Enquanto meus amigos idolatravam astronautas como John Glenn e esportistas como Sandy Koufax e Johnny Unitas, meus heróis eram Hornbein e Unsoeld.

Em segredo, eu sonhava em escalar o Everest algum dia; por mais de uma década isso permaneceu uma ambição ardente. Ao atingir a casa dos vinte, o alpinismo se tornara o foco principal de minha existência, à exclusão de quase tudo o mais. Chegar ao topo de uma montanha era tangível, imutável, concreto. Os perigos subjacentes emprestavam ao ofício a seriedade de propósitos que em grande medida faltava ao restante de minha vida. Arrepiava-me inteiro com as perspectivas que vinham da possibilidade de virar o plano natural da existência de cabeça para baixo.

Além do mais, o alpinismo fornecia um sentido de comunidade. Tornar-se alpinista significava juntar-se a uma sociedade auto-suficiente, de um idealismo ferrenho, mas quase ignorada e surpreendentemente resguardada do grande mundo. A cultura do montanhismo era caracterizada por uma competição intensa e por um machismo indisfarçável; a grande preocupação da maioria de seus integrantes era impressionar uns aos outros. Chegar ao topo de uma determinada montanha tinha muito menos importância do que a maneira como se chegava lá: o prestígio vinha de se atacar a mais impiedosa das rotas com o mínimo de equipamento, no estilo mais ousado que se pudesse imaginar. Ninguém era mais admirado do que o chamado solista livre: visionários que subiam sozinhos, sem corda nem ferramentas.

Naquele tempo eu vivia para escalar, sobrevivia com 5 ou 6 mil dólares ao ano trabalhando como carpinteiro ou em pesqueiros de salmão, apenas até conseguir dinheiro suficiente para bancar a próxima viagem até os montes Teton, à cadeia do Alasca, ou ao Bugaboos. Mas, em algum momento, com vinte e tantos anos, abandonei minha fantasia de infância de subir o Everest. Nessa altura tinha virado moda, entre os especialistas, denegrir o Everest e chamá-lo de algo equivalente a "monte de escória" - um pico ao qual faltavam desafios técnicos suficientes e apelo estético para se transformar em objetivo digno de um alpinista "sério", coisa que eu desesperadamente almejava ser. Comecei a

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