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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 20 / 128

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torcer o nariz para a montanha mais alta do mundo.

Tamanho esnobismo tinha suas raízes no fato de que, por volta do início da década de 80, a via mais fácil para o Everest - através do colo sul e da crista sudeste - já fora escalada mais de cem vezes. Meus colegas e eu nos referíamos à crista sudeste como a "rota do iaque". Nosso desprezo aumentou ainda mais em 1985, quando Dick Bass - um texano rico de 55 anos, com uma experiência limitada de alpinismo - foi levado ao topo do Everest por um extraordinário jovem alpinista chamado David Breashears, um evento acompanhado por um vendaval de atenções pouco críticas por parte dos meios de comunicação.

Até então o Everest fora, em grande medida, território exclusivo dos alpinistas de elite. Nas palavras de Michael Kennedy, editor da revista Climbing, "ser convidado para participar de uma expedição ao Everest era uma honra que se alcançava somente depois de um longo aprendizado em picos menores; chegar de fato ao cume elevava um alpinista aos píncaros do estrelato no montanhismo". A escalada de Bass mudou isso tudo. Ao abocanhar o Everest, Bass tornou-se a primeira pessoa a escalar todos os Sete Cumes, (4) feito que lhe valeu renome internacional e fez com que uma enxurrada de outros alpinistas de fim de semana seguisse a trilha que ele abrira graças a um guia. Sem contar que, com isso, Dick Bass empurrou o Everest para o meio da era pós-moderna.

"Para velhotes como eu, Dick Bass foi uma inspiração", explicou-me Seaborn Beck Weathers com seu carregado sotaque de texano do leste durante a caminhada até o acampamento-base do Everest, em abril de 1996. Médico patologista, 49 anos, morador de Dallas, Beck era um dos oito clientes da expedição de Rob Hall. "Bass me mostrou que o Everest estava dentro do reino das possibilidades para caras normais. Presumindo-se que você esteja em forma razoável e tenha algum dinheiro disponível, talvez o maior obstáculo seja, de fato, conseguir tirar uma folga do trabalho e abandonar a família por dois meses."

No entanto, para um número considerável de alpinistas, segundo mostram os registros, tirar uma folga da rotina diária não tem sido um obstáculo insuperável, assim como também não parece ser muito complicado desembolsar as polpudas quantias cobradas pelas expedições comerciais. Nos últimos cinco anos, o tráfego em todos os Sete Cumes, sobretudo no Everest, multiplicou-se em ritmo alucinante. E, para atender à demanda, o número de empreendimentos comerciais vendendo expedições guiadas aos Sete Cumes, em particular ao Everest, multi­plicou-se na mesma velocidade. Na primavera de 1996, havia trinta expedições distintas nas encostas do Everest e pelo menos dez haviam sido organizadas com fins lucrativos.

O governo do Nepal admitiu que a quantidade de pessoas que se dirigiam ao Everest estava criando sérios problemas em termos de segurança, estética e impacto no meio ambiente. Os ministros nepaleses encarregados de tratar do assunto chegaram então a uma conclusão que parecia conter a dupla promessa de limitar a quantidade de pessoas e, ao mesmo tempo, incrementar o fluxo de moeda forte para os empobrecidos cofres nacionais: aumentar o preço da licença que permite escalar o Everest. Em 1991, o Ministério do Turismo cobrava 2300 dólares por uma licença que permitia às equipes de qualquer tamanho tentar o Everest. Em 1992, a taxa foi aumentada para 10 mil dólares para equipes de até nove alpinistas, com mais 1200 dólares para cada alpinista adicional.

Mas os alpinistas continuaram indo para o Everest, apesar das taxas mais altas. Na primavera de 1993, no quadragésimo aniversário da primeira escalada, um número recorde de quinze expedições, num total de 294 alpinistas, tentou escalar o pico pelo lado nepalês. No outono, o ministério aumentou a taxa da licença uma vez mais - para a fantástica quantia de 50 mil dólares por cinco alpinistas, mais 10 mil dólares para cada integrante adicional, até um máximo de sete pessoas em cada expedição. Além disso, o governo decretou que não seria permitida a presença de mais do que quatro expedições nas encostas nepalesas em cada temporada.

O que os ministros do Nepal não levaram em conta, no entanto, era que a China cobrava apenas 15 mil dólares para permitir que equipes de qualquer tamanho escalassem a montanha pelo lado do Tibete e, ainda por cima, não impunha limite no número de expedições por temporada. O influxo de alpinistas, portanto, mudou do Nepal para o Tibete, deixando os sherpas sem trabalho. O alarde geral que se seguiu à medida persuadiu o Nepal, na primavera de 1996, a cancelar bruscamente o limite de quatro expedições. E, já que estavam com a mão na massa, os ministros impuseram mais um aumento na

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