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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 21 / 128

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taxa — dessa vez para 70 mil dólares para cada sete alpinistas, mais 10 mil por integrante adicional. Se considerarmos o número de expedições escalando pelo lado nepalês da montanha, na primavera passada - dezesseis das trinta equipes -, o altíssimo custo para se obter uma licença não parece ter sido um fator de dissuasão muito convincente.

Mesmo antes do desastroso resultado da temporada pré-monção de 1996, a proliferação das expedições comerciais já era um assunto delicado. Os tradicionalistas sentiam-se ofendidos com o fato de o pico mais alto do mundo estar sendo vendido a arrivistas ricos – alguns deles, caso não tivessem o benefício de guias, provavelmente teriam dificuldade de chegar a um pico tão modesto quanto o do monte Rainier, nos Estados Unidos. O Everest, diziam os puristas de nariz torcido, fora degradado e profanado.

Esses mesmos críticos também argumentavam que, graças à comercialização do Everest, o pico outrora sagrado fora arrastado para o lodaçal da jurisprudência americana. Tendo pago somas principescas para serem conduzidos ao topo do Everest, alguns alpinistas passaram a processar os guias sempre que por um motivo ou outro não conseguiam chegar ao cume. "De vez em quando aparece um cliente que acha que comprou um bilhete até o cume", lamenta-se Peter Athans, um guia muitíssimo respeitado que já fez onze viagens ao Everest e chegou ao topo quatro vezes. "Tem gente que não entende que uma expedição ao Everest não pode ser administrada como um trem suíço.”

Infelizmente, alguns processos relacionados com o Everest não deixam de ter sua razão. Mais de uma vez, empresas ineptas ou inescrupulosas deixaram de fornecer o apoio logístico crucial - oxigênio, por exemplo -, conforme o prometido. Em algumas expedições os guias prosseguiram rumo ao cume sem nenhum dos pagantes, levando os frustrados clientes a imaginar que tinham sido levados até lá apenas para arcar com as despesas. Em 1995, o líder de uma expedição comercial sumiu com dezenas de milhares de dólares de seus clientes, antes mesmo que a expedição começasse.

Em março de 1995, recebi um telefonema de um dos editores da revista Outside, propondo que me juntasse a uma expedição comercial programada para partir dali a cinco dias rumo ao Everest. O objetivo era que eu escrevesse um artigo sobre a crescente comercialização da montanha e sobre a polêmica a respeito do assunto. A intenção da revista não era que eu escalasse o pico; os editores queriam simplesmente que eu permanecesse no acampamento-base e relatasse a história do glacial Rongbuk oriental, no sopé tibetano da montanha. Pensei seriamente na oferta—cheguei inclusive a reservar um vôo e tomar as vacinas necessárias - mas recuei no último minuto.

Tendo em vista o desdém que eu demonstrara pelo Everest durante anos, pode parecer que eu tenha me recusado a ir por uma questão de princípios. Na verdade, a oferta da Outside despertara inesperadamente um desejo fortíssimo e havia muito soterrado dentro de mim. Eu disse não apenas porque achei que seria quase insuportável a frustração de passar dois meses à sombra do Everest sem ir além do acampamento-base. Se era para atravessar metade do globo e passar oito semanas longe de minha mulher e de casa, eu queria ter a oportunidade de pelo menos tentar escalar a montanha.

Perguntei a Mark Bryant, editor da Outside, se ele topava adiar o compromisso por doze meses (o que me daria tempo de treinar adequadamente para as exigências físicas da expedição). Também sondei a possibilidade de a revista me integrar a um dos serviços guiados de melhor reputação - e bancar os 65 mil dólares cobrados -, dando-me assim a oportunidade de tentar chegar ao cume. No fundo eu não esperava que eles concordassem com esse plano. Havia escrito mais de sessenta artigos para a Outside, durante os quinze anos anteriores, e raras vezes fizera viagens cujo orçamento excedesse 2 ou 3 mil dólares.

Bryant ligou de volta um dia depois, tendo consultado a diretoria da Outside. Disse que a revista não poderia desembolsar os 65 mil dólares, mas que ele e outros editores achavam que a comercialização do Everest era uma matéria importante. Se eu estivesse mesmo com intenções sérias de escalar o Everest, a Outside acharia um jeito de tornar isso realidade.

Durante os 33 anos em que me tive na conta de alpinista, eu já concluíra alguns projetos difíceis. No Alasca, enfrentei uma rota nova e complicada no Mooses Tooth e consegui escalar, sozinho, o Devils Thumb, coisa que significou passar três semanas totalmente só numa remota calota de gelo. Eu já fizera uma série de perigosas escaladas no gelo, no Canadá e no Colorado. Perto do extremo sul da

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