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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 22 / 128

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América do Sul, onde o vento varre a Terra como "a vassoura de Deus" - "La Escoba de Dios", como dizem os habitantes da região -, escalei um assustador espigão com 1600 metros de granito vertical, chamado Cerro Torre: assolado por ventos de até cem nós de velocidade, recoberto por uma camada quebradiça de cristais de gelo, já foi considerado (embora não o seja mais) a montanha mais difícil do mundo.

Entretanto, essas aventuras haviam ocorrido anos, em alguns casos décadas, antes, quando eu estava na casa dos vinte ou trinta. Agora eu tinha 41 anos, já bem além da idade ideal para o alpinismo, e ganhara uma barba grisalha, gengivas ruins e oito quilos a mais em volta da cintura. Estava casado com uma mulher que eu amava muito - e que me amava também. Tendo encontrado uma carreira tolerável, pela primeira vez na vida estava vivendo acima da linha de pobreza. Em suma, minha fome de escalar fora amainada por um punhado de pequenas satisfações que, somadas, chegavam a beirar a felicidade.

Além do mais, nenhuma das escaladas anteriores me levara a grandes altitudes. Para dizer a verdade, eu nunca ultrapassara os 5240 metros - o que é inferior à altitude do acampamento-base do Everest.

Como ávido estudante da história do alpinismo, eu sabia que o Everest já matara mais de 130 pessoas desde que os primeiros britânicos visitaram a montanha, em 1921 - cerca de um morto para cada quatro alpinistas que chegaram ao cume —, e que muitos dos que morreram eram bem melhores e possuíam muito mais experiência de grandes altitudes do que eu. Mas descobri que os sonhos de infância custam a morrer. Dane-se o bom senso. No final de fevereiro de 1996, Bryant ligou para dizer que havia um lugar me esperando na próxima expedição de Rob Hall ao Everest. Quando me perguntou se eu tinha certeza de querer ir, disse que sim sem nem mesmo parar para tomar fôlego.

3. Sobre o norte da Índia

29 de março de 1996

9144 m

Fui brusco e contei-lhes uma parábola. Disse-lhes: é do planeta Netuno que estou falando, apenas do feioso e corriqueiro Netuno, não do Paraíso, mesmo porque eu não conheço o Paraíso. Portanto entendam que isso diz respeito a vocês, só a vocês. Há por acaso uma grande rocha por lá e é preciso que saibam que as pessoas eram muito tolas lá em Netuno, sobretudo porque cada uma vivia amarrada em seu próprio nó. E algumas, que eu quero mencionar em particular, algumas acabaram totalmente absorvidas por essa montanha. Vocês nem acreditariam, eu disse vida ou morte, útil ou inútil, essa gente adquirira o hábi­to e passava todo o tempo livre e gastava todas as suas energias perseguindo as nuvens de sua própria glória, subindo e descendo os flancos mais íngremes da região. Todos, sem exceção, voltavam revigorados. E assim deveriam voltar, eu disse, porque era interessante ver que mesmo em Netuno a maioria não poupava esforços para subir, atrás dos demais e em relativa segurança, os flancos mais fáceis. De todo modo, havia satisfação e de fato era visível, tanto na fisionomia resoluta como no contentamento que brilhava em seus olhos. E, como eu já havia salientado, isso era Netuno e não o Paraíso, onde, talvez, não haja mais nada afazer.

John Menlove Edwards

Letterfrom a man

Duas horas após embarcar em Bancoc no vôo 311 da Thai Air, rumo a Katmandu, levantei-me da poltrona e fui até a traseira do avião. Perto dos banheiros, a estibordo, abaixei-me para espiar por uma janela pequena, que batia na minha cintura, na esperança de ver algumas montanhas. Não me decepcionei: lá estavam, arranhando o horizonte, os incisivos pontiagudos do Himalaia. Fiquei na janela durante o restante do vôo, fascinado, debruçado sobre um saco de lixo cheio de latas de refrigerante e refeições semi deglutidas, o rosto colado no Plexiglas gelado.

No mesmo instante reconheci o volume imenso e esparramado do Kanchenjunga, a 8585 metros acima do nível do mar, a terceira montanha mais alta do mundo. Quinze minutos depois, Makalu, o quinto pico mais alto, apareceu — e aí, enfim, o perfil inconfundível do próprio Everest.

A cunha negro-retinta do cume da pirâmide destacava-se em nítido relevo, acima de todas as montanhas em volta. Espetada lá no alto das fortíssimas correntes de vento do jet stream, a montanha rasgava uma fenda visível no furacão de 120 nós, arremessando adiante um penacho de cristais de gelo que se estendia a leste como uma longa echarpe de seda. Enquanto espiava essa esteira de vento no céu, ocor­reu-me que o topo do Everest estava exatamente na mesma altitude que o jato pressurizado que me levava através do firmamento. Que eu estivesse pensando em subir à mesma altitude de cruzeiro de um Airbus 300 me pareceu, naquele momento, algo absurdo, ou ainda pior. A

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