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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 23 / 128

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palma das mãos umedeceu.

Quarenta minutos depois eu descia em Katmandu. Percorrendo o saguão do aeroporto, depois de passar pela alfândega, um rapaz de ossatura grande e rosto barbeado reparou em minhas duas enormes mochilas e aproximou-se. "Você dever ser Jon, certo?", ele perguntou no sotaque cantado da Nova Zelândia, dando uma olhada rápida para uma folha impressa com as fotocópias das fotos de passaporte dos clientes de Rob Hall. Apertou minha mão e apresentou-se como sendo Andy Harris, um dos guias de Hall, que iria me acompanhar até o hotel.

Harris, que tinha 31 anos, disse que um outro cliente deveria chegar de Bancoc no mesmo vôo, um advogado de 53 anos de Bloomfield Hills, Michigan, chamado Lou Kasischke. Acabou levando uma hora até que Kasischke conseguisse localizar sua bagagem e, enquanto esperávamos, Andy e eu trocamos figurinhas a respeito das escaladas mais difíceis que havíamos feito no Canadá e discutimos os méritos do esqui tradicional em comparação com o snowboard.(5) O interesse visível de Andy pelo alpinismo, seu entusiasmo genuíno pelas montanhas me deixaram com saudades da época em que escalar era, para mim, a coisa mais importante da vida, da época em que eu mapeava o curso da existência em termos das montanhas que escalara e das que esperava um dia poder escalar.

Pouco antes de Kasischke  - um homem atlético, alto, de cabelos prateados, reservado e aristocrático  - emergir da fila da alfândega, perguntei a Andy quantas vezes estivera no Everest. "Na verdade", ele confessou alegremente, "esta vai ser minha primeira vez, como você. Vai ser interessante ver como eu me viro lá em cima."

Hall fizera reserva para nós no Hotel Garuda, um estabelecimento simpático e sem frescuras, situado no coração de Thamel, o frenético bairro turístico de Katmandu, numa avenida estreita entupida de riquixás puxados por bicicleta e vendedores ambulantes. Há muito tempo que o Garuda é bastante popular entre as expedições para o Himalaia, e suas paredes são cobertas de fotos assinadas por alpinistas famosos que pousaram ali no decorrer dos anos: Reinhold Messner, Peter Habeler, Kitty Calhoun, John Roskelley, Jeff Lowe. Subindo as escadas até meu quarto, passei por um grande cartaz em quatro cores intitulado "Trilogia do Himalaia", no qual apareciam o Everest, o K2 e o Lhotse - a primeira, segunda e quarta maiores montanhas do mundo, respectivamente. O cartaz mostrava, sobreposto à imagem desses picos, um homem barbudo e sorridente, em traje alpino completo. Uma legenda identificava o alpinista como sendo Rob Hall. O cartaz, destinado a promover a empresa de alpinismo de Hall, a Adventure Consultants, comemorava o feito nada desprezível de ter escalado os três picos ao longo de dois meses, em 1994.

Uma hora depois conheci Hall em carne e osso. Magro como um varapau, devia ter entre l,88e 1,92 metro de altura. Havia qualquer coisa de angelical em seu rosto, mas parecia mais velho que seus 35 anos - talvez por causa das rugas bem marcadas no canto dos olhos, ou devido à autoridade que inspirava. Estava vestido com uma camisa havaiana e calça Levi's desbotada, remendada num dos joelhos com um símbolo bordado do yin-yang. Uma cabeleira castanha rebelde caía-lhe pela testa. A barba era um matagal emaranhado precisando ser aparado.

Gregário por natureza, Hall mostrou ser um excelente contador de casos, com seu cáustico humor neozelandês. Embarcando numa histó­ria comprida que envolvia um turista francês, um monge budista e um iaque especialmente peludo, Hall encerrou a piada com um olharzinho maroto, deu uma paradinha de efeito, depois jogou a cabeça para trás numa risada sonora, contagiante, incapaz de disfarçar a satisfação que sentia com seu próprio enredo. Gostei dele na hora.

Hall nascera numa família católica da classe operária em Christchurch, Nova Zelândia, o caçula de nove filhos. Embora tivesse uma mente rápida e científica, aos quinze anos largou a escola, depois de se desentender com um professor especialmente autoritário, e, em 1976, foi trabalhar para a Alp Sports, uma empresa de sua cidade que fabricava equipamento de alpinismo. "Ele começou fazendo serviços variados, trabalhando na máquina de costura, coisas assim", lembra Bill Atkinson, hoje alpinista consagrado e guia, que também trabalhava na Alp Sports na época. "Mas devido à excepcional capacidade de organização de Rob, que já era evidente quando ele tinha apenas dezesseis ou dezessete anos, logo mais ele estava gerenciando toda a produção da empresa."

Nessa altura Hall já era, havia alguns anos, um ávido montanhista; mais ou menos na mesma época em

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