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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 26 / 128

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peito. O barulho ensurdecedor do motor tornava qualquer tipo de conversa impossível. Não foi uma viagem confortável, mas ninguém reclamou.

Em 1963, a expedição de Tom Hornbein percorreu um longo e tortuoso trajeto até o Everest, partindo de Banepa, a uns dezenove quilômetros de distância de Katmandu, e levou 31 dias para chegar ao acampamento-base. Nós, como a maioria dos exploradores modernos do Everest, Preferimos saltar grande parte daqueles quilômetros íngremes e empoeirados; o helicóptero deveria nos deixar na remota aldeia de Lukla, a 2804 metros de altitude, na encosta do Himalaia. Presumindo-se que não cairíamos no caminho, o vôo nos permitiria percorrer a mesma trilha de Horbein economizando umas três semanas.

Olhando em torno do vasto interior do helicóptero, tentei guardar de cor os nomes de meus companheiros. Além dos guias, Rob Hall e Andy Harris, havia Helen Wilton, 39 anos, mãe de quatro filhos, que estava voltando pela terceira vez ao acampamento-base para trabalhar na gerência. A dra. Caroline Mackenzie — uma excelente alpinista de vinte e tantos anos — seria a médica da expedição e, como Helen, não iria além do acampamento-base. Lou Kasischke, o advogado cavalheiresco que eu conhecera no aeroporto, já escalara seis dos Sete Picos — assim como Yasuko Namba, 47 anos, uma taciturna diretora de recursos humanos da filial da Federal Express em Tóquio. Beck Weathers, 49 anos, era um patologista tagarela de Dallas. Stuart Hutchison, 34, vestido com uma camiseta da Ren & Stimpy, era um cardiologista canadense cerebral e um tanto instável que tirara folga de uma bolsa de estudos. John Taske, aos 56 anos, era o integrante mais velho do grupo, um anestesista de Brisbane que se dedicara ao alpinismo após ser reformado pelo exército australiano. Frank Fischbeck, 53, garboso e refinado dono de uma editora em Hong Kong, tentara o Everest três vezes com um dos concorrentes de Hall; em 1994 conseguira chegar até o cume sul, a meros cem metros verticais do topo. Doug Hansen, 46, era um funcionário dos correios americanos que fora ao Everest com Hall em 1995 e, como Fischbeck, chegara até o cume sul antes de dar meia-volta.

Eu não sabia muito bem o que pensar de meus companheiros pagantes. Na aparência e na experiência, estavam longe de ser os alpinistas escolados com quem eu tinha o costume de escalar montanhas. No entanto, pareciam pessoas decentes, bem-educadas, e não havia um rematado imbecil sequer em todo o grupo — pelo menos nenhum que estivesse mostrando sua verdadeira cara assim de início. Eu, contudo, não tinha muita coisa em comum com nenhum deles, à exceção de Doug. Sujeito rijo, festeiro e com um rosto precocemente envelhecido, que fazia lembrar uma bola de futebol gasta, fora funcionário dos correios por mais de 27 anos. Contou-me que conseguira pagar a viagem trabalhando no período noturno nos correios e em obras durante o dia.

Como eu já tinha ganhado a vida como carpinteiro durante oito anos, antes de me tornar escritor — e também porque nossa renda anual nos distanciava dos outros clientes a olhos vistos —, sentia-me confortável na companhia de Doug, de um jeito que não ocorria com os outros.

Grande parte do tempo eu atribuía meu desconforto crescente ao fato de que nunca tinha escalado junto com um grupo tão grande — ainda por cima, um grupo de completos estranhos. A exceção de uma viagem ao Alasca que eu fizera 21 anos antes, todas as minhas expedições anteriores foram feitas ao lado de um ou dois amigos confiáveis, ou sozinho.

Numa escalada, ter confiança nos parceiros é uma das principais preocupações. As ações de um único alpinista podem afetar o bem-estar de toda a equipe. As conseqüências de um nó malfeito, de um tropeção, de uma pedra deslocada ou qualquer outra ação descuidada afetam a todos, não só àquele que cometeu o erro. Por isso, não é surpresa nenhuma que todo alpinista se sinta meio receoso ao empreender uma escalada com gente cuja boa-fé desconhece.

Todavia, confiança nos companheiros é um luxo impossível para os que participam como clientes de uma subida guiada; resta pôr toda a fé no próprio guia. A medida que o helicóptero rugia em direção a Lukla, tive a sensação de que cada um de meus companheiros estaria torcendo ardorosamente para que Hall tivesse selecionado e eliminado, com o maior cuidado, todos os clientes de habilidade duvidosa, tendo assim os meios de proteger cada um de nós das falhas alheias.

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