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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 28 / 128

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Ao jantar a conversa foi dominada pelos três clientes médicos — Stuart, John e sobretudo Beck —, um esquema que se repetiria durante boa parte da expedição. Felizmente, John e Beck, em especial, eram muito engraçados e mantinham o grupo às gargalhadas. Beck, no entanto, tinha o hábito de transformar seus monólogos em críticas acerbas contra os progressistas e, a uma certa altura, aquela noite, eu cometi o erro de discordar dele: em resposta a um de seus comentários, sugeri que elevar o salário mínimo me parecia uma medida sábia e necessária. Bem informado e debatedor experiente, Beck fez picadinho de minha titubeante declaração e eu não possuía as ferramentas para rebatê-lo.

Tudo o que pude fazer foi ficar sentado em cima das mãos, de boca fechada e furibundo.

Como ele prosseguisse, com seu sotaque pantanoso de texano do leste enumerando os diversos absurdos proporcionados pelo bem-estar social, acabei me levantando da mesa para evitar maiores humilhações. Quando voltei ao refeitório, aproximei-me da proprietária para pedir uma cerveja. Ela era uma sherpani miúda, graciosa, e estava pegando os pedidos de um grupo de norte-americanos que ali estavam para caminhar pelas montanhas. "Nós com fome", um homem de bochechas vermelhas anunciou a ela, num tom desnecessariamente alto, imitando o ato de comer. "Quer comer ba-ta-tas. Bife de iaque. Co-ca-Co-la. Você ter?"

"Gostariam de ver o cardápio?", a sherpani respondeu, num inglês impecável, com um ligeiro sotaque canadense. "Nossa seleção é bastante ampla. E creio que ainda haja um pouco de torta de maçã, assada agora há pouco, caso queiram sobremesa."

O americano, incapaz de assimilar o fato de que essa montanhesa de pele escura estivesse se dirigindo a ele no mais puro e correto inglês, continuou a falar com ela em seu cômico linguajar: "Cardá-piu. Bom, bom. Sim, a gente quer cardá-piu".

Os sherpas continuam sendo um enigma para a maioria dos estrangeiros, cuja tendência é olhá-los através de um prisma romântico. Quem não está familiarizado com a demografia do Himalaia em geral presume que todos os nepaleses sejam sherpas, quando, na verdade, não há mais que 20 mil sherpas em todo o Nepal, um país do tamanho da Carolina do Norte, com cerca de 20 milhões de habitantes e mais de cinqüenta grupos étnicos diferentes. Os sherpas são um povo que habita as montanhas, budistas fiéis, cujos ancestrais migraram do Tibete para o sul, há quatro ou cinco séculos. Há aldeias sherpas espalhadas por todo o maciço do Himalaia do lado leste do Nepal, e também comunidades de dimensões consideráveis em Sikkim e Darjeeling, na Índia; porém, o coração do país sherpa é o Khumbu, composto por alguns vales que cortam as encostas sul do monte Everest — uma região pequena, muito acidentada, sem uma estrada sequer, nem carros ou veículos de rodas de nenhuma espécie.

Lavrar a terra é difícil naqueles vales de grande altitude e paredes escarpadas, de modo que a economia sherpa tradicional girava em torno do comércio com o Tibete e a Índia, e da criação de iaques. Em 1921, quando os britânicos empreenderam sua primeira expedição ao Everest, decidiram contratar sherpas como ajudantes, o que provocou uma reviravolta na cultura local.

Como o reino do Nepal manteve suas fronteiras fechadas até 1949, o reconhecimento inicial do Everest e as oito expedições seguintes foram forçadas a atacar a montanha pelo lado norte, pelo Tibete, não passando nem perto do Khumbu. Entretanto, essas primeiras nove expedições partiram para o Tibete de Darjeeling, para onde muitos sherpas haviam emigrado e onde haviam adquirido a reputação, na colônia britânica, de bons trabalhadores, afáveis e inteligentes. Além do mais, como a maioria dos sherpas vivera durante gerações em aldeias situadas entre 2700 e 4200 metros de altitude, estavam fisiologicamente adaptados aos rigores das grandes altitudes. Seguindo a recomendação de A. M. Kellas, médico escocês que escalara e viajara bastante em companhia dos sherpas, a expedição de 1921 ao Everest contratou um grande contingente de carregadores e ajudantes, prática que foi seguida por todas as demais expedições, salvo honrosas exceções, nos 75 anos seguintes.

Para melhor ou pior, nas duas últimas décadas a economia e a cultura do Khumbu mesclaram-se, de modo crescente e irrevogável, ao influxo sazonal de alpinistas e trekkers, com cerca de 15 mil visitantes anuais. Os sherpas que aprendem as técnicas do alpinismo e trabalham em alta montanha — principalmente os que chegam até o cume do Everest — gozam de grande estima em suas comunidades. Os que acabam virando estrelas do alpinismo têm, no entanto, grande chance de perder a vida: desde 1922, quando sete sherpas morreram sob uma avalanche, durante a segunda expedição

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